Na fronteira da robótica
Estudo integra projeto interdisclipinar
para o
desenvolvimento de sistemas automatizados
PAULO
CESAR NASCIMENTO
Dissertação
de mestrado defendida na Faculdade de Engenharia Elétrica
e de Computação (FEEC) da Unicamp constitui o primeiro trabalho
de um amplo projeto em curso na Universidade voltado à pesquisa
e ao desenvolvimento de tecnologias para locomoção comandada
por sinais cerebrais. Os resultados do experimento apresentado
pelo engenheiro Ricardo da Silva Souza no estudo Uma plataforma
para integração de redes de sensores sem fio a aplicações
de robótica móvel contribuirão para a implantação de ambientes
inteligentes na área de robótica assistiva – expressão que
define recursos concebidos para minorar dificuldades encontradas
por indivíduos com deficiências. No longo prazo, a tecnologia
poderá auxiliar a mobilidade de pessoas com severas sequelas
motoras – como as que sofrem AVC (Acidente Vascular Cerebral)
– por meio de sistemas automatizados.
A navegação de robôs móveis
constitui uma das inúmeras possibilidades de aplicação de
um emergente campo de pesquisas em tecnologia da informação,
a computação pervasiva (que se infiltra). Esforços científicos
mundiais nessa área buscam proporcionar maior integração entre
a computação e o ambiente por meio da densa inserção de dispositivos
sensoriais diminutos e inteligentes no universo físico visando
à obtenção e ao aproveitamento de informações do meio, seja
para monitorá-lo, instrumentá-lo e até controlá-lo. As Redes
de Sensores Sem Fio (RSSFs) constituem o recurso que permite
distribuir amplamente sensores dotados das mais variadas funções
pelo ambiente de interesse, proporcionando o entrelaçamento
e a conexão desses microprocessadores.
Uma
rede pode fazer uso de diferentes tipos de sensores, entre
eles sísmicos, magnéticos, térmicos, visuais e acústicos,
capazes de monitorar uma variada gama de condições ambientais,
como temperatura, umidade, pressão, aceleração, direção, luminosidade
e som, entre outras. Essa versatilidade propicia amplas perspectivas
de utilização das RSSFs, com ênfase ao monitoramento ambiental,
doméstico e industrial, além de aplicações militares e na
área da saúde.
Orientada pelo professor Eleri
Cardozo, a dissertação tem como principal contribuição o desenvolvimento
de um software que permite a integração de redes de sensores
sem fio em aplicações de robótica móvel. O uso das RSSFs possibilita
a comunicação com robôs e a locomoção autônoma dos engenhos
por extensas áreas.
De acordo com o aluno, além
de prover comunicação para os robôs, uma rede de sensores
pode também auxiliar na sua navegação, localização e ainda
aumentar sua capacidade de sensoriamento.
Segundo
o estudo, a evolução da robótica móvel tem impulsionado pesquisas
na direção de soluções que buscam realizar o controle de robôs
de forma distribuída. A operação requer a existência de um
ambiente instrumentado, ou seja, dotado de redes de comunicação
sem fio que conectam o robô a um grande número de sensores
com o emprego de tecnologias atualmente disponíveis como Wi-Fi
e Bluetooth, por exemplo. Os sensores (também denominados
nós sensores) instalados no ambiente (como as dependências
de um imóvel) são equipados com emissor de rádio. O robô capta
os sinais direcionais enviados e, desse modo, consegue percorrer
o espaço determinado pela rede.
Os caminhos tomados pelo
robô também podem ser influenciados por informações captadas
do ambiente pelos nós da rede e transmitidas ao dispositivo
móvel. Uma rede faz leituras de luminosidade, temperatura
e umidade e, ao fundir essas informações com a altura dos
nós, estabelece a posição de obstáculos ao trânsito do robô
no ambiente. Com essa informação, um sensor é capaz de informar
ao aparato para onde este deve se locomover.
O experimento de Ricardo
consistiu no planejamento de uma rota para ser cumprida pelo
robô até um determinado destino, em um ambiente instrumentado,
considerando também a possibilidade de ocorrer mudanças de
percurso frente a certos eventos inesperados no local. A navegação
autônoma mostrou-se viável, ressalta o autor da dissertação.
Ele optou por utilizar diferentes situações de luminosidade
para gerar alterações de rota.
Os robôs utilizados na investigação
foram pequenos veículos fabricados nos EUA para finalidades
científicas. Na operação do software no protótipo, Ricardo
contou com o suporte do aluno de doutorado Leonardo Rocha
Olivi, especialista em inteligência artificial, e do aluno
de mestrado Fernando Paolieri Neto, na área de visão robótica.
Desafios
Os resultados do estudo contribuirão,
no futuro, para a concepção de dispositivos robotizados de
apoio à locomoção, como cadeira de rodas, adianta Eleri. Os
veículos poderão ser controlados por sinais cerebrais, a partir
de uma interface cérebro-computador (BCI da sigla em inglês
para Brain Computer Interface). O desenvolvimento e a aplicação
de ferramentas de inteligência computacional para processamento
de sinais biológicos constituem o escopo do projeto Desenvolvimento
de Tecnologias da Informação para Neurologia (Destine).
A
arrojada empreitada conta com recursos da ordem de R$ 1,7
milhão aprovados pela Finep e agrega uma equipe multidisciplinar
nas áreas de saúde, neuroimagens, telecomunicações, robótica
e ambientes inteligentes formada por profissionais da Unicamp,
do Centro de Tecnologia da Informação (CTI) Renato Archer,
da Universidade Federal do ABC e do Instituto Venturus. Integram
o projeto pela Unicamp representantes da FEEC, da Faculdade
de Ciências Médicas (FCM) e do Instituto de Física Gleb Wataghin
(IFGW).
Além de investigações no campo
das tecnologias de ambientes inteligentes e computação pervasiva
para apoio à navegação de robôs assistivos, o Destine investe
no estudo da viabilidade da utilização de sinais cerebrais
para o controle desses dispositivos móveis. O trabalho constitui
pesquisa de fronteira, com o emprego de tecnologias inovadoras,
como a que permite diagnósticos a partir de neuroimagens obtidas
por meio de luz infravermelha, denominada Near-infrared spectroscopy
(NIRS).
O projeto contempla, entre
outras ações, a elaboração de protocolos tanto de aquisição
de sinais – para avaliação do funcionamento cerebral dos pacientes
selecionados para o projeto piloto – como de avaliação neurológica
com a finalidade de estabelecer parâmetros para adaptar os
algoritmos de processamento às condições clínicas dos usuários.
Os sinais adquiridos em tempo real e processados pelos algoritmos
serão utilizados na navegação do veículo robótico. O desenvolvimento
de técnicas de processamento digital de sinais visando à extração
de padrões e comandos para controle do robô assistivo caberá
a pesquisadores da área de telecomunicações, ficando sob a
responsabilidade do grupo de robótica a implementação de métodos
de navegação baseados em estímulos bioelétricos.
Caso
um paciente já dispusesse de uma cadeira de rodas robótica
e conectada ao ambiente inteligente de uma residência, ele
apenas informaria ao sistema o percurso desejado (do quarto
para a sala, por exemplo) e a rede se encarregaria de conduzi-lo
de forma segura e confortável, explica Eliane Guimarães, pesquisadora
da Divisão de Robótica do CTI e coorientadora do estudo realizado
por Ricardo. A inclusão de outros sensores, como câmeras,
pode aprimorar as informações sobre as áreas de circulação
fornecidas ao robô (indicando a presença de escadas, portas
fechadas, móveis, entre outros obstáculos) e constitui uma
possibilidade de evolução do sistema, melhorando a acessibilidade
e a segurança do transporte.
Entretanto, como as instruções
precisam ser transmitidas à cadeira por sinais cerebrais,
o sucesso do processo depende da solução de uma etapa crucial
da pesquisa: o desenvolvimento de uma eficaz interface para
captação e processamento digital dos impulsos.
Uma das técnicas que os pesquisadores
do Destine planejam utilizar é acoplar à cadeira uma pequena
tela de vídeo com ícones luminosos representativos de ações
que podem ser comandadas a partir de escolhas realizadas visualmente
pelo usuário. Estímulos cerebrais equivalentes a cada opção
seriam gerados e captados por inúmeros eletrodos externos
aderidos a uma espécie de touca e, dessa maneira, transferidos
aos mecanismos de locomoção da cadeira.
Contudo, a interação por
meio de eletrodos posicionados externamente na cabeça do paciente
costuma gerar interferências, como as causadas por mau contato
devido à transpiração no couro cabeludo. O sistema responsável
pela locomoção da cadeira, por sua vez, precisa entender e
processar corretamente a comunicação desejada pelo usuário,
o que requer o desenvolvimento de técnicas bastante sofisticadas
de filtragem e classificação de sinais, já que estes variam
de pessoa a pessoa.
Portanto, para o veículo robótico
poder beneficiar o maior número possível de usuários, será
necessário constituir um “banco de sinais cerebrais” que abarque
um universo significativo de diferentes condições neurológicas
e permita estabelecer os padrões mais comuns, observa o professor
da FEEC José Raimundo de Oliveira, coordenador do Destine.
“Por isso, o processo de
aquisição de sinais é de grande relevância para o projeto”,
enfatiza o docente.
Os trabalhos do Destine começaram
no início deste ano, quando houve a liberação dos recursos
aprovados em 2010, e seus resultados, embora promissores,
são ainda incipientes e estão muito distantes de qualquer
aplicação prática, pondera José Raimundo.
“Há um longo caminho pela
frente. Temos bolsistas de pós-graduação desenvolvendo estudos
no âmbito do projeto e estamos começando a colher os primeiros
resultados, por enquanto isolados, como os da dissertação
do Ricardo. Esperamos logo poder integrar os esforços das
equipes e conduzir as pesquisas a um novo estágio.”
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■ Publicação
Dissertação: “Uma
plataforma para integração de redes de sensores sem fio a
aplicações de robótica móvel”
Autor: Ricardo da Silva Souza
Orientador: Eleri Cardozo
Coorientadora: Eliane Guimarães
Unidade: Faculdade de Engenharia Elétrica
e de Computação (FEEC)
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