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Desvendando o inimigo
Pesquisadores tentam compreender
o mecanismo
de ação da bactéria causadora do cancro cítrico;
objetivo é combater o micro-organismo
MANUEL
ALVES FILHO
Um grupo de pesquisadores
do Laboratório Nacional de Biociências (LNBio) está empenhado
em compreender melhor o mecanismo de ação da bactéria Xanthomonas
citri, causadora do cancro cítrico, uma das principais doenças
que afetam a produção de laranja no Brasil, país líder mundial
na exportação de suco concentrado. Ao desvendar como o micro-organismo
age, os cientistas esperam desenvolver soluções que possam
levar à cura da planta contaminada ou pelo menos amenizar
os sintomas causados pelo patógeno. De acordo com dados do
Fundo de Defesa da Citricultura (Fundecitrus), entidade que
representa os citricultores, de janeiro a outubro de 2008
foram erradicados do Estado de São Paulo, maior produtor brasileiro,
e ao sul do Triângulo Mineiro 165.397 pés de laranja em talhões
e 49.753 em pomares domésticos por causa do ataque do cancro
cítrico.
Um dos estudos em torno do
tema foi realizado pela bióloga Mariane Noronha Domingues,
que defendeu recentemente tese de doutorado no curso de pós-graduação
em Biologia Funcional e Molecular do Instituto de Biologia
(IB) da Unicamp, sob orientação do professor Celso Eduardo
Benedetti. A pesquisadora concentrou sua investigação na ação
da proteína conhecida como PthA, usada pela bactéria para
promover o surgimento dos sintomas da doença, que são a hipertrofia
e hiperplasia (aumento do tamanho e do número de células da
planta).
Para
entender melhor esse processo, Mariane identificou e caracterizou
interações entre essa proteína e as proteínas da laranja.
“O que foi possível verificar é que, uma vez dentro das células,
essa proteína manipula a expressão dos genes da planta. Dito
de forma simplificada, ela usa a seu favor as funções que
ajudariam no desenvolvimento da planta”, explica. A compreensão
desse aspecto, conforme a autora da tese, representa mais
um passo em direção à possível definição de métodos que anulem
ou atenuem a ação da bactéria. “Outras pesquisas estão sendo
desenvolvidas pelo grupo do LNBio, para que continuemos ampliando
nosso conhecimento em torno do tema. Atualmente, o cancro
cítrico não tem cura. Quando ocorre a contaminação, as plantas
de laranja infectadas devem ser erradicadas”, diz.
A pesquisadora informa que
o avanço do cancro cítrico ocorre de forma muito rápida. A
bactéria pode ser disseminada pelo vento, pela chuva, pelo
homem através de podas com ferramentas contaminadas pelo micro-organismo
e até por insetos herbívoros. A bactéria penetra nos tecidos
da planta através de aberturas naturais, como os estômatos,
ou de pequenos ferimentos nas folhas, frutos e ramos. “Inicialmente,
surgem pústulas nas folhas, caules e frutos. Conforme a infecção
vai aumentando, as pústulas se tornam elevadas, feito bolhas.
Os quadros mais graves podem levar à desfolha e até mesmo
ao caimento prematuro dos frutos”, detalha Mariane.
Embora não haja notícia de
que a bactéria cause algum problema ao homem, para a citricultura
ela é terrível, como observa a pesquisadora. Além de comprometer
a safra de laranja, a doença também representa um sério empecilho
às exportações. Alguns países compradores de suco concentrado
brasileiro, como os da Europa, impõem severas barreiras fitossanitárias
ao produto justamente por causa da presença do cancro cítrico
nos nossos pomares.
Segundo
a bióloga, que contou com bolsa da Fundação de Amparo à Pesquisa
do Estado de São Paulo (Fapesp), há vários anos a doença representa
um sério problema para a citricultura nacional, mas a situação
se agravou a partir de 2009, quando a Secretaria da Agricultura
e Abastecimento do Estado de São Paulo resolveu abrandar as
medidas de fitossanidade relativas ao cancro cítrico. A resolução
SAA-43 determinou que os produtores paulistas passassem a
seguir a portaria 291 do Ministério da Agricultura, publicada
dez anos antes. Com a alteração, os produtores foram isentos
da necessidade de erradicar o talhão caso a contaminação ultrapassasse
um limiar de 0,5% de plantas infectadas. Antes, o procedimento
era remover os talhões que apresentassem incidência de cancro
cítrico superior a 0,5%. Para incidências iguais ou inferiores
a 0,5%, eram eliminadas as plantas doentes e as demais inseridas
em um raio de 30 metros. A medida continua em vigor.
Assim que a legislação foi
mudada, a Fundecitrus se posicionou contra a iniciativa, por
considerá-la um retrocesso. O pesquisador da entidade, José
Belasque Júnior, avaliou que medidas mais drásticas na erradicação
de plantas com cancro cítrico, baseadas em pesquisas científicas,
é que permitiram ao longo do tempo o controle eficaz da doença.
“Com a volta de uma legislação menos rígida, plantas doentes
permanecerão nos talhões, resultando na disseminação do cancro
cítrico para as demais árvores e pomares vizinhos”, afirmou
em dada ocasião.
Na mesma linha, o presidente
da Fundecitrus, Lourival Carmo Monaco, argumentou que o risco
de aumento dos índices do cancro cítrico, a exemplo de outros
países e estados brasileiros, seria iminente por causa da
mudança. “O provável aumento do cancro cítrico em São Paulo
implicará na necessidade de mais equipes de inspeção de campo
e combate químico que acarretará em mais custos para os produtores”,
previu. De acordo com a Associação Nacional dos Exportadores
de Sucos Cítricos (CitrusBR), apenas no âmbito nacional a
cadeia citrícola movimenta anualmente cerca de US$ 15 bilhões
, gerando 230 mil empregos.
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■ Publicação
Artigo
DOMINGUES, MARIANE NORONHA ; DE SOUZA, TIAGO
ANTONIO ; CERNADAS, RAÚL ANDRÉS ; DE OLIVEIRA, MARIA LUIZA
PEIXOTO ; DOCENA, CÁSSIA; FARAH, CHUCK SHAKER ; BENEDETTI,
CELSO EDUARDO . The Xanthomonas citri effector protein PthA
interacts with citrus proteins involved in nuclear transport,
protein folding and ubiquitination associated with DNA repair.
Molecular Plant Pathology, v. 11, p. 663-675, 2010.
Tese: “Caracterização
de proteínas de Citrus sinensis que interagem com a proteína
efetora PthA, indutora do cancro cítrico”
Autora: Mariane Noronha
Orientação: Celso Eduardo Benedetti
Unidade: Instituto de Biologia (IB)
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