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Flavonoides regridem tumores em
estudo desenvolvido no IB
Além de componentes naturais, pesquisadores
usaram composto sintético
Estudo
experimental desenvolvido no Instituto de Biologia (IB) com
os flavonoides quercetina, narigina e morina, além do acetoxi
DMU, mostrou-se promissor na regressão do câncer e no aumento
da sobrevida em ratos. Embora os resultados sejam ainda preliminares,
o tratamento terapêutico com todos os quatro compostos foi
capaz de inibir em até 50% o crescimento tumoral do carcinossarcoma
de Walker 256 (específico de ratos) e houve uma sobrevida
de uma média de 60% dos animais na vigência de tratamento,
em relação aos ratos que não receberam tratamento nenhum.
Na prática, cada grupo de compostos avaliado somava dez ratos.
Destes, em uma média de quatro, o tumor regrediu completamente
com o tratamento proposto, sendo que, nos outros seis, o tamanho
do tumor diminuiu 50%.
Outros avanços comemorados
pela bióloga Camila de Andrade Camargo, autora da pesquisa
de doutorado, e pelo seu orientador, o docente do IB Hiroshi
Aoyama, foram a diminuição da caquexia provocada pelo câncer
em estágios avançados, além de resultados enzimáticos substantivos.
“O tumor requer vasos sanguíneos para crescer e, no estudo,
foi dosada a proteína VEGF (fator de crescimento vascular
endotelial), relacionada ao crescimento desses vasos sanguíneos
ao redor do tumor. Os ratos tratados com os flavonoides, compostos
bioativos encontrados nos vegetais, e com o acetoxi DMU, composto
sintético análogo ao resveratrol (no estudo sintetizado pelo
professor Carlos Roque, do Instituto de Química), inibiram
a ação dessa proteína. “Também testamos proteinases ligadas
à invasão tumoral e à metástase. Nos ratos tratados, estas
proteinases apresentaram menor atividade”, informa a pesquisadora.
O resveratrol (antioxidante
que em geral previne o envelhecimento e as doenças cardíacas)
tornou-se mais conhecido por meio do difundido ‘paradoxo francês’,
uma expressão adotada pelos anglo-saxões e nutricionistas
para se referir ao notório paradoxo entre a alimentação dos
franceses e a sua saúde que, dentre os seus hábitos mais comuns,
está a ingestão de um cálice de vinho por dia. “Alguns estudos
relacionados ao consumo de vinho deixaram claro que as pessoas
que o consomem moderadamente podem ter menos doenças cardíacas
que as pessoas que não o ingerem”, assegura Camila de Andrade.
Alguns
estudos, menciona Hiroshi Aoyama, apontam que o consumo de
alimentos ricos nesses compostos está associado a uma redução
no risco de desenvolvimento de certas doenças, provavelmente
por sua ação antioxidante, que protege as células contra os
danos causados pelos ataques dos radicais livres. O principal
mecanismo protetor se dá através da diminuição na oxidação
das moléculas de LDL (o “colesterol ruim”) e do aumento do
HDL (o “bom colesterol”), melhorando o perfil de gorduras
que circulam no sangue. Além disso, eles demonstram ação anti-inflamatória,
o que reduziria os riscos cardiovasculares. Muitos deles foram
descritos também como potentes anti-hemorrágicos, antialérgicos
e anti-hipertensivos, dentre outras atividades.
O modelo tumoral escolhido,
o carcinossarcoma de Walker 256 – que apresenta um comportamento
biológico agressivo, sendo localmente invasivo e com alto
poder de metástase – é um tumor genérico que se assemelha
a alguns tipos de câncer no ser humano. É parecido com aqueles
que provocam caquexia nos pacientes em fases avançadas, como
o pulmonar, o pancreático e o gastrointestinal, etc. Nos ratos
avaliados, como era de se prever, estes tumores também desencadearam
caquexia. “Tentei empregar o tratamento terapêutico com os
compostos naturais para verificar se eram capazes de inibir
o crescimento tumoral ou prevenir a caquexia”, relata a bióloga.
A síndrome da caquexia representa
um estado metabólico complexo no organismo do paciente. Ela
é geralmente caracterizada pela perda de peso progressiva,
que ocorre devido ao uso das reservas de gorduras e também
dos músculos do corpo do paciente para o suprimento do tumor.
Portanto, esta síndrome está diretamente ligada à baixa qualidade
de vida, sendo responsável por uma diminuição significativa
no tempo de vida dos pacientes com câncer. No trabalho de
Camila e de Hiroshi Aoyama, foi possível abrandar tal caquexia.
Testes
As células tumorais (obtidas
com a professora Maria Cristina Cintra Gomes Marcondes, do
Departamento de Anatomia, Biologia Celular e Fisiologia e
Biofísica do IB) foram inoculadas na coxa dos ratos para o
desenvolvimento de um tumor sólido. O tamanho dos tumores
dos animais era medido três vezes por semana. Várias doses
dos compostos foram testadas a fim de se encontrar a melhor
dose. A sobrevida dos ratos foi igualmente analisada. Aqueles
com tumor que receberam o tratamento com os quatro compostos
viveram mais tempo que os ratos com tumor que não receberam
tratamento nenhum.
Hiroshi adverte que os flavonoides,
não obstante a sua ação antioxidante, dependendo de sua concentração,
podem atuar também como pró-oxidantes, levando ao aparecimento
de radicais livres, espécies reativas de oxigênio que podem
causar danos ao organismo. No caso do experimento de Camila,
uma certa dose de cada composto mostrou-se benéfica. Mas,
aumentando-a, o animal não apresentou melhora nenhuma. “Por
isso deve-se ter cuidado para que as pessoas não se adiantem
querendo aplicar os nossos conhecimentos, ainda básicos. Ao
invés de terem um efeito benéfico, poderão ter prejuízos se
os utilizarem em grandes quantidades.”
Segundo a pesquisadora, foram
feitos ainda testes para verificar o estado dos órgãos sexuais
dos animais, em colaboração com a professora Mary Anne Heidi
Dolder, também do Departamento de Anatomia, Biologia Celular
e Fisiologia e Biofísica. Averiguou-se particularmente o peso
e a morfometria (análises em nível celular) dos seus testículos.
O peso dos testículos dos ratos com tumor, sem os tratamentos,
foi menor em relação ao dos animais com tumor tratados com
os compostos (estes apresentaram peso semelhante aos dos animais
controle, sem tumor). Somando-se aos resultados obtidos nas
análises de morfometria, concluiu-se que os tratamentos foram
eficazes em proteger os órgãos sexuais dos animais.
A bióloga conta que a quercetina
é encontrada em grande medida no vinho tinto, cebola, maçã
e nos chás verde e preto; a morina em figos, goiabas e amêndoas,
e a narigina em frutas cítricas como a laranja e a mexerica.
O consumo in natura deve ser inclusive estimulado, acredita
Hiroshi Aoyama. “A contribuição futura do estudo concorrerá
para que este tratamento sirva como terapêutica contra o câncer
em seres humanos”, completa o professor.
Ele salienta que, em suas
linhas de pesquisa, desenvolvidas no Laboratório de Enzimologia
do IB, estudam-se desde a parte básica relacionada à purificação
de enzimas e determinação de seus parâmetros cinéticos in
vitro (no tubo de ensaio) até os estudos com compostos naturais,
em cultura de células, para verificar se eles têm alguma atividade
anticancerígena; e ainda o trabalho de Camila, sobre compostos
naturais in vivo. “Sou responsável pela linha de pesquisa
da purificação e caracterização de enzimas in vitro e in vivo.
Já a parte de cultura de células é feita em colaboração com
a professora do IB Carmen Veríssima Ferreira”, comenta Hiroshi
Aoyama. Em seu laboratório, os flavonoides já foram testados
in vitro e em células normais e cancerígenas e, agora, a grande
contribuição é com um experimento in vivo (feito em animais).
Tais compostos já existem comercialmente, diz o orientador.
É o caso das cápsulas de quercetina. Os testes nesta tese
foram feitos apenas com o carcinossarcoma de Walker 256. Portanto,
ainda não é prudente fazer extrapolações para outros tipos
de câncer, já que, até chegar à cura, há muito por se estudar.
“Vai aí pelo menos uma década até gerar uma patente e ganhar
as prateleiras dos laboratórios”, constata o orientador da
tese. Dar continuidade a esses experimentos é uma das metas
do grupo de pesquisa de Hiroshi Aoyama pois, para chegar aos
seres humanos, muitas outras análises bioquímicas serão necessárias.
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■ Publicação
Camargo, C.A.; da Silva, M.E.; da Silva, R.A.;
Justo, G.Z.; Gomes-Marcondes, M.C.; Aoyama, H. Inhibition
of tumor growth by quercetin with increase of survival and
prevention of cachexia in Walker 256 tumor-bearing rats. Biochemical
and Biophysical Research Communications, 406:638-42, 2011.
Tese: “Atividade anticâncer
de quercetina, narigina, morina e acetoxi DMU no tratamento
terapêutico de ratos inoculados com carcinossarcoma de walker
256”
Autora: Camila de Andrade Camargo
Orientador: Hiroshi Aoyama
Unidade: Instituto de Biologia (IB)
Financiamento: Fapesp
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