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MARIA
ALICE DA CRUZ
O poeta Cacaso (1944-1987) viveu pouco, mas deixou uma produção
literária rica. “Fico imaginando como seria se tivesse vivido
mais”, diz Débora Racy Soares, autora da tese “Dor, sombra,
lucidez – leitura de Beijo na Boca iluminada pela trajetória
poética de Cacaso e pelo éthos de sua geração”. A partir do
livro Beijo na Boca (1975), a pesquisadora faz uma leitura
e atualiza a trajetória poética de Antônio Carlos de Brito,
analisando a contribuição do poeta para a literatura brasileira.
Terceiro livro de versos de Cacaso, a obra representa também
um momento de autorreflexão sobre sua arte de versar, na opinião
de Débora. “Ele parece estar sempre em busca de identidade
lírica neste livro, mas para entender a proposta de Beijo
na Boca, tive de percorrer toda sua trajetória, sem me render
à abordagem tradicional”, explica Débora. A tese teve orientação
da professora Vilma Arêas, do Instituto de Estudos da Linguagem
(IEL) da Unicamp.
Beijo na Boca, segundo
Débora, é um livro que configura impasses poéticos, estéticos
e existenciais, como se o poeta estivesse a ponderar sobre
a vida e sobre os rumos que sua poesia seguiria a partir de
então. Ela julga importante ressaltar que Beijo na Boca
representa um ponto-chave em sua produção, pois neste livro
Cacaso parte da temática amorosa – que funciona como filtro
estético ou estratégia linguística – para problematizar impasses
poéticos e antagonismos sociais. “Nesse sentido, alguns poemas
podem ser considerados alegóricos, outros metalinguísticos”,
acentua.
A publicação que mistura
amor e humor, com pitada de ironia e apropriação de palavras
de antecessores, faz parte daquilo que Débora e outros críticos
literários consideram ser sua fase “marginal do mimeógrafo”.
Entre os antecessores que inspiraram alguns de seus versos
estão Gonçalves Dias, Casimiro de Abreu, Carlos Drummond de
Andrade e Cecília Meireles. A intertextualidade, seja por
meio da paródia, da paráfrase ou das citações, é uma das características
destacadas por Débora. Segundo a autora, a aposta no humor
e na ironia também é produtiva e deixa transparecer uma linguagem
que caminha em direção à “desrepressão”, tão valorizada pelo
poeta.
Cacaso fazia parte da chamada
Geração Marginal, da década de 1970, assim chamada por reagir
à paralisia institucional, assumindo uma produção alternativa
de publicações poéticas à margem das editoras. Produzir e
distribuir os próprios livros, como veio a acontecer num passado
recente com discos e filmes, era uma forma de driblar o sistema
editorial da época, cada vez mais restritivo. O grande número
de material literário rejeitado pelo sistema deu origem ao
circuito paralelo, do qual Cacaso acabou por fazer parte,
liderando as coleções Frenesi (1974) e Vida de
Artista (1975 a 1978). A Frenesi contou com apoio de
Zelito Viana, proprietário da produtora Mapa Filmes,
enquanto Vida de Artista foi financiada, integralmente, pelo
próprio Cacaso, que nessa época confessou ter tido “despesas
com o fazer poesia”.
É no bojo dessa resistência
poética que nascem as obras Grupo Escolar (1974),
Segunda Classe (1975), escrito a quatro mãos com
o poeta Luís Olavo Fontes, Na Corda Bamba (1978) e Beijo
na Boca, cuja sutileza da capa chamou a atenção de Débora
por não condizer fielmente com o conteúdo encontrado no livro.
“A capa de Beijo na Boca chega a enganar sobre o
conteúdo encontrado no miolo, pois sugere que o leitor esteja
diante de uma lírica de amor. Mas como o poeta gostava de
repetir, se as aparências enganam, também desenganam e revelam”,
acrescenta Débora. Se à primeira vista a imagem do coração
rodeado de florzinhas remete à ideia de amores idealizados,
Cacaso desconstrói o ideal do amor romântico, apontando para
amores desencontrados e para a ausência ou impossibilidade
de happy end na publicação de 1975, segundo Débora. O livro,
segundo a pesquisadora, se distancia do tom explicitamente
engajado do título anterior, Grupo Escolar. Para ela, é como
se o mote amoroso fosse uma desculpa para Cacaso refletir
não só sobre seu próprio fazer artístico, mas também sobre
a poesia e a vida na década de 1970 no Brasil.
No livro analisado, de acordo
com a pesquisadora, Cacaso afina suas penas e sua poética
por meio de uma lírica sentimental subjetiva que incorpora
as contradições da realidade. No decorrer da análise dos poemas,
Débora percebe que “quanto mais Cacaso afunda seu sujeito
lírico em íntimos sentimentos, tanto mais descortina os antagonismos
sociais”. Ele estava preocupado com as questões sociais, ao
mesmo tempo em que precisava compor seus poemas. Os textos
carregam tanto aspectos estéticos e pessoais quanto coletivos.
Ela aposta na ideia de que neste livro Cacaso procura “liberar
a poesia da política, apostando na política da linguagem,
ao invés da linguagem política”.
Débora acentua que “se o
processo de leitura supõe o desdobramento criativo do texto,
Beijo na Boca ganha amplitude estética quando considerado
no conjunto da produção de Cacaso e, também, das ideias de
sua geração”. Ela enfatiza que, “embora seus poemas sejam
independentes e possam ser lidos separadamente, compõem uma
espécie de poema único ou “poemão”, que sintetiza vivências
subjetivas e coletivas”. Mas lançar os olhos apenas ao “poemão”
pode levar a equívocos analíticos, que redundam na redução
– cometida por certa vertente crítica – de toda a produção
de uma geração a um denominador comum, na opinião da autora.
A
década de 1970 representou um período fértil na trajetória
de Cacaso, mas ele ainda publicou Mar de Mineiro
(1982), mescla de 75 canções e 44 poemas, dedicado especialmente
aos parceiros musicais Nelson Ângelo e Novelli; e Beijo
na Boca e Outros Poemas (1985), com amostras de sua produção
poética até então. Em 1997, dez anos após sua morte, a professora
Vilma Arêas organizou, pelas Editoras da Unicamp e da UFRJ,
ensaios teórico-críticos do poeta no livro Não Quero Prosa,
cuja tiragem está esgotada. Em 2002, os esforços conjuntos
das editoras Cosac & Naify e 7Letras resultaram
em um volume com a obra completa publicada de Cacaso, acrescida
de alguns inéditos: Lero-Lero, lançado em 2002. Esta
edição reúne todos os títulos, mas sem a inclusão de desenhos,
partituras, letras de músicas, presentes nas edições anteriores.
Mas foi quase no fim da vida
que Cacaso redescobriu uma antiga paixão: a composição de
letras musicais, voltando a atuar ao lado de grandes nomes
da música popular brasileira, como Edu Lobo, Djavan, Tom Jobim,
Toquinho, Toninho Horta, Cláudio Nucci, Eduardo Gudin, Francis
Hime, Sivuca, João Donato. Mas além do rigor estético, ele
encontrava também nas letras a forma lírica de cantar sua
geração e a realidade dos anos de ditadura.
De acordo com Débora, à medida
que a produção poética de Cacaso diminuía, sua produção como
letrista se intensificava. Nesta sua terceira fase, dedicada
à música, as despesas com a poesia foram recompensadas pelos
sucessos musicais. Um deles feito em parceira com Sueli Costa,
Dentro de mim mora um anjo. Esta canção , assim como Lero-Lero,
em parceria com Edu Lobo, permitiu que Cacaso suspendesse
suas atividades docentes para se dedicar totalmente à música.
A música de Sueli Costa ganhou dimensão após ter sido gravada
por Fafá de Belém e Lucinha Lins, além de fazer parte da trilha
sonora de uma novela na década de 1980.
Depois de mergulhar na obra
de Cacaso para tentar entrar criticamente na trajetória de
sua poética, Débora conclui que, se a produção de Cacaso estava
em processo de adensamento na época de Beijo na Boca,
hoje ela pode ser referência importante para novos poetas.
A sua importância na historiografia literária deve ser reconhecida,
por se tratar de um interlocutor de grande valia. “Ainda que
sua trajetória estética tenha sido tão curta quanto sua vida,
revela-se poeta em pleno ‘domínio da sutileza’, por meio,
sobretudo, de uma palavra da qual se extrai um tipo de ‘lucidez’
que ‘sai da dor’ e é sombria”, finaliza Débora.
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■ Publicação
Tese: “Dor,
sombra, lucidez – leitura de Beijo na Boca iluminada pela
trajetória poética de Cacaso e pelo éthos de sua geração”
Autora: Débora Racy Soares
Orientadora: Vilma Arêas
Unidade: Instituto de Estudos da Linguagem
(IEL)
Financiamento: Fapesp
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