Tecnologia à base de energia solar
elimina poluentes orgânicos da água
Sistema, cujo pedido de patente
já foi depositado,
é sustentável e viável economicamente
VÉRONIQUE
HOURCADE
Especial para o JU
A Organização das Nações Unidas
(ONU) divulgou que 2,6 bilhões de pessoas no mundo vivem sem
acesso a saneamento adequado. O alerta foi dado por ocasião
do lançamento do programa “Saneamento Sustentável: Cinco Anos
até 2015”, em junho último, cuja proposta é acelerar a redução
pela metade da quantidade de pessoas sem acessos a saneamento
básico, reconhecido pela ONU como um direito humano.
Nesse sentido, pesquisas
como a desenvolvida pelo grupo de Fotoeletroquímica & Conversão
de Energia, coordenado pela professora Cláudia Longo, do Instituto
de Química (IQ) da Unicamp, ganham destaque. O trabalho resultou
no desenvolvimento da tecnologia “Sistema para purificação
de água que utiliza energia solar e eletrodo de TiO2 nanocristalino
para destruir poluentes”, que tem pedido de patente depositado
pela Agência de Inovação Inova Unicamp junto ao Instituto
Nacional da Propriedade Industrial (Inpi) e traz uma alternativa
sustentável, viável economicamente e altamente eficiente,
para eliminar poluentes orgânicos da água.
De acordo com a professora
Cláudia Longo, os resultados obtidos nos experimentos realizados
em escala laboratorial são promissores e indicam que o sistema
pode ser aperfeiçoado e utilizado para promover melhor condição
de vida para a população. O aperfeiçoamento, conforme explica,
poderá viabilizar a utilização dessa tecnologia para a etapa
final do tratamento de efluentes industriais. “Também poderá
ser utilizada para a purificação da água consumida por pessoas
que vivem em regiões sem acesso a saneamento básico”, aponta.
Após providenciar o registro
de pedido de patente, os resultados do trabalho foram divulgados
em 2010 na revista Applied Catalysis B: Environmental,
uma das mais conceituadas da área. A pesquisa vem sendo desenvolvida
desde 2004 e conta com financiamento da Fapesp, CNPq e Capes
por meio de auxílios à pesquisa e bolsas. Também recebeu apoio
do Instituto Nacional de C,T&I em Materiais Complexos Funcionais
(Inomat), coordenado pelo professor Fernando Galembeck (IQ).
Os
estudos foram realizados no âmbito do projeto de mestrado
de Haroldo Gregório de Oliveira, que é coautor da patente
e atualmente desenvolve o doutorado na área, e também em programas
de iniciação científica desenvolvidos por estudantes de Química,
Farmácia e de Engenharia Química.
Em 2009, na ocasião do XVII
Congresso Interno de Iniciação Científica da Unicamp, a professora
Cláudia recebeu uma menção honrosa concedida pela Pró-Reitoria
de Pesquisa por orientar o aluno Fernando C. L. Miaise no
trabalho “Desenvolvimento de um sistema para purificação de
água por fotocatálise heterogênea eletroassistida utilizando
eletrodo de TiO2 nanocristalino e células solares”.
Outra premiação foi concedida
na 33ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira de Química: o
trabalho “Descontaminação de água com eletrodo de TiO2 conectado
a célula solar: oxidação de fenol no anodo e deposição de
cobre no catodo” foi apresentado oralmente e como painel,
tendo sido eleito um dos melhores painéis da sessão de Química
Tecnológica.
Purificação
A conversão de energia solar
em aplicações que visam a melhoria do meio ambiente é o que
move o grupo de pesquisa do IQ e, no trabalho que resultou
no pedido de registro de patente, o objetivo é o de purificar
a água por meio dessa fonte de energia. Os pesquisadores desenvolveram
um sistema que consiste na conexão de um eletrodo de TiO2
a células solares, resultando na combinação de duas aplicações
da conversão da energia solar por meio de semicondutores.
Conforme explica Cláudia,
a primeira aplicação resultante, e já bastante conhecida,
é a conversão em energia elétrica. A outra se refere à purificação
da água. O diferencial do trabalho é a combinação das duas,
tornando o processo mais eficiente em relação às alternativas
existentes. Em relação ao tratamento de efluentes disponíveis
atualmente, ela aponta algumas limitações, como custos elevados
e o longo período necessário para a descontaminação. Outro
fator relevante inclui a baixa eficácia para eliminar diversos
poluentes orgânicos solúveis, tais como fenol, pesticidas,
corantes e medicamentos. Estes poluentes persistentes permanecem
no ambiente por longos períodos, já que não são biodegradáveis.
O tema da presença de contaminantes
emergentes é objeto de estudo do professor Wilson de Figueiredo
Jardim, também do IQ. No primeiro semestre deste ano, inclusive,
ele organizou um workshop na Unicamp sobre a presença desses
contaminantes na água para consumo humano (ver em Portal
da Unicamp, 14 de abril de 2011). Na ocasião, Jardim
afirmou que ainda não se sabe, ao certo, dos riscos à saúde
humana, mas o efeito em animais já foi comprovado, como é
o caso da alteração no sexo dos peixes, provocando uma feminização
dos machos.
No evento, o docente apresentou
ainda o resultado do projeto temático sobre a ocorrência de
contaminantes emergentes em mananciais e água consumida no
Estado de São Paulo. Foram encontrados vários, entre os quais
atrazina (agrotóxico), cafeína, hormônio sintético e substâncias
de medicamentos. O levantamento contou com financiamento da
Fapesp e envolveu pesquisadores da Unicamp, Unesp e da Companhia
de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb).
Irradiação solar
Os testes realizados em pequenas
escalas, no laboratório, no âmbito da pesquisa orientada pela
professora Cláudia Longo, mostraram resultados animadores
em relação à eliminação justamente desse tipo de substância
da água. Os primeiros experimentos foram realizados sob irradiação
solar direta; posteriormente, os pesquisadores utilizaram
um simulador solar, eficiente e de baixo custo, com intensidade
semelhante à obtida sob o sol do meio dia e que permite o
controle de temperatura e intensidade da radiação. Recentemente,
adquiriu-se também um simulador solar de maior porte para
possibilitar o estudo em maior escala. Com esse simulador
foi possível medir a eficiência e a durabilidade do sistema
de purificação de água, que tem atuado de maneira reprodutível
e com longa durabilidade.
Esse estudo foi realizado
com eletrodos de TiO2 com 9 cm² para tratamento de 10mL de
água contendo 50 mg/L de fenol. O fenol, considerado um poluente
persistente, pode estar presente nos efluentes de diversas
indústrias e apresenta vários efeitos nocivos à saúde. Os
resultados encontrados revelaram a degradação de 78% do fenol
após três horas sob irradiação no simulador solar; após seis
horas, mais de 90% do poluente foi mineralizado. Resultados
animadores também foram encontrados no sistema com eletrodos
de 35cm² para tratamento de 70 mL de solução e, recentemente,
para 0,5 L, em fluxo. As substâncias investigadas incluem,
além do fenol, o corante Rodamina 6G (utilizado na indústria
têxtil) e os fármacos paracetamol e estradiol.
O sistema também tem grande
potencial para desinfecção de água contaminada por bactérias.
Já foi estabelecida uma colaboração com o professor José Roberto
Guimarães, do Departamento de Saneamento e Ambiente da Faculdade
de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo (FEC) da Unicamp,
e espera-se que novos estudantes integrem o grupo para desenvolver
o projeto.
Benefícios
Com a possibilidade de ampliação
dos testes e aperfeiçoamento do sistema, o trabalho pode ter
aplicação na etapa final do tratamento de efluentes, tendo
como alvo estações de tratamento de efluentes de indústrias
têxteis, de papel e celulose, petroquímicas e de agrotóxicos,
por exemplo, bem como companhias de água e esgoto e estações
de tratamento de efluentes em shopping centers, entre outros.
Cláudia ressalta ainda que o sistema aperfeiçoado também pode
ser utilizado para purificação de água em comunidades afastadas,
não atendidas pelo serviço básico de saneamento, eliminando
contaminantes resistentes a tratamentos convencionais.
Outra vantagem do sistema
é o fato de ser autossuficiente do ponto de vista energético,
devido à utilização de radiação solar. Baixo custo e o fato
de ser sustentável (não é poluente, não exige adição de insumos
e não gera resíduos) completam a relação.
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■ Publicação
Projeto: “Sistema para purificação
de água que utiliza energia solar e eletrodo de TiO2 nanocristalino
para destruir poluentes”
Coordenação: Cláudia Longo
Coautor: Haroldo Gregório de Oliveira
Financiamento: Fapesp, CNPq e Capes
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