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Energia de ponto zero
Feito publicado na Nature
só havia sido alcançado
em sistemas de armadilhas ópticas
O professor Thiago Alegre, do Departamento de Física Aplicada
do Instituto de Física Gleb Wataghin (IFGW) da Unicamp, integrou
equipe que, pela primeira vez, conseguiu resfriar o modo mecânico
de um nano-objeto, uma microcavidade, composta por milhões
de átomos. Utilizando luz laser o grupo conseguiu que a temperatura
do modo mecânico ficasse próxima do zero absoluto (zero graus
kelvin), levando-o ao seu estado de mais baixa energia atingível,
a chamada energia de ponto zero (ground state), em
que não ocorrem mais vibrações das particulas. O feito só
fora alcançado anteriormente em sistemas de armadilhas ópticas
envolvendo poucos átomos. A conquista abre caminho para o
desenvolvimento de detectores de massa e força extremamente
sensíveis, bem como para o desenvolvimento de experimentos
quânticos em sistemas macroscópicos com bilhões de átomos,
sonho dos cientistas há quase uma década.
O grupo de pesquisadores responsáveis
pelo estudo pertence ao Instituto de Tecnologia da Califórnia
(Caltech) e contou com a colaboração de uma equipe da Universidade
de Viena. Os resultados mereceram quatro páginas na edição
de outubro da revista científica Nature e mais de
uma página na secção News&Views da mesma edição,
o que atesta sua relevância. Nessa apresentação o autor, Florian
Marquardt, elenca os pontos principais do trabalho, destaca
sua importância, estabelece comparações com pesquisas anteriores
e antevê possíveis desdobramentos. O Caltech ocupa o primeiro
lugar entre as melhores universidades do mundo, conforme ranking
publicado em outubro pelo Times Higher Education (THE), superando
instituições tradicionais como Harvard, Instituto de Tecnologia
de Massachussets (MIT), Cambrige e Oxford.
Tornar-se aluno desse seleto
e conceituado Instituto – que não chega a ter mais de mil
alunos matriculados na graduação e cerca de 1.200 na pós-graduação
– constitui um feito para qualquer estudante. Particularmente
para os oriundos do Brasil, pois são pouquíssimos os brasileiros
que nele ingressam, caso de Thiago Alegre que lá cumpriu período
de três anos de pós-doutorado, depois da graduação e do doutorado
na Unicamp, onde se tornou professor concursado recentemente.
Como foi feito
O artigo publicado na Nature
descreve como a equipe liderada pelo professor Oskar Painter
projetou, obteve e resfriou cavidades ópticas nanométricas
em uma nanoviga de silício, na qual são feitos buracos da
ordem de 200 nanômetros que ocupam posições previamente estudadas.
A nanoviga tem 560 nanômetros de largura e 15 microns de comprimento
e é visível ao microscópio convencional. O mícron e o nanômetro
são, respectivamente, a milionésima e a bilionésima parte
do metro. A posição geométrica dos buracos na nanoviga permite
que apenas uma freqüência (cor) de um laser, ou fótons, possa
ser confinada na região central da nanoviga formando uma cavidade
óptica.
A figura 1 representa a nanoviga
e toda a estrutura de silício que lhe dá suporte. Thiago explica
que, para interagir com o sistema, a luz laser é conduzida
por uma fibra óptica mantida próxima à região central da nanoviga,
conforme mostra a figura 2. É nesta região que os fótons ficam
concentrados e confinados em decorrência tanto da diferença
do índice de refração entre o silício e o ar, quanto da geometria
e periodicidade dos pequenos buracos ao longo dela, formando
um cristal fotônico. Nestes sistemas são dispostos de forma
alternada e sucessiva dois materiais de índices de refração
diferentes, No caso da nanoviga utilizada intercalam-se silício
e ar (buracos). Com isso, forma-se uma região transparente
a apenas uma frequência de luz (cor), sendo então todas as
demais frequências refletidas pelo material.
Este
efeito é similar ao que dá às borboletas sua coloração azulada,
pois na natureza a alternância de pequenas estruturas nas
asas deste inseto leva à reflexão apenas da cor azul. Ou seja,
a coloração observada resulta dessas estruturas e não da pigmentação.
A utilização deste efeito permite criar uma cavidade óptica
em que um determinado tipo de luz (fótons) fica confinado
em uma pequena região.
O sistema determinado por
essas cavidades ópticas têm a propriedade de também servir
de oscilador mecânico e aprisionar fônons, que são partículas
associadas com oscilações mecânicas assim como os fótons estão
associados com as oscilações eletromagnéticas (luz). A figura
3 mostra a região em que se dá a oscilação. Ao confinar o
campo óptico e o campo mecânico em uma mesma região promove-se
uma grande interação entre fótons e fônons. Alegre observa
que a medida da diferença entre o tipo de fóton (luz) que
entra e o tipo de luz que sai da cavidade permite informações
sobre o sistema. Através da caracterização da luz que sai
consegue-se determinar o movimento da cavidade e associar
essa vibração à sua temperatura interna.
Os fótons que entraram na
cavidade exercem força em suas paredes e ao empurrá-la mudam
seu tamanho, o que facilita o escape de fótons, provocando
a diminuição das forças que atuam na cavidade. Nesse processo
dinâmico, essas forças atuantes aumentam e diminuem alternadamente.
Esse ciclo de alimentação permite interferir no sistema, de
modo a frear o movimento de vibração. Manipulando a cor da
luz colocada no sistema, controla-se a alternância da força
que atua na nanovigota e que a faz vibrar. Com uma força capaz
de se opor à vibração, consegue-se parar o movimento ou então,
inversamente, provocar aumento da vibração até criar um oscilador.
O pesquisador esclarece que,
escolhendo cuidadosamente a frequência do laser de excitação,
o grupo conseguiu extrair energia mecânica através da luz
que sai da cavidade, o que leva ao resfriamento do sistema.
“Isso acontece porque a cavidade prefere espalhar a luz de
determinada frequência. Quando a diferença entre essa frequência
natural da cavidade e a frequência do laser incidente se iguala
à frequência com que a oscilação mecânica ocorre, pode-se
intervir nessa oscilação de forma a ampliá-la ou até anulá-la.
Dessa forma cria-se uma interface eficiente entre um sistema
óptico e um sistema mecânico em que a informação pode fluir
de um para outro. Em outras palavras: para ser aprisionada
na cavidade óptica a luz, com energia menor que a cavidade,
precisa ganhar energia, mudando de cor, o que é possível absorvendo
energia mecânica do sistema, que é assim resfriado. O sistema
se mostrou tão eficiente que os pesquisadores conseguiram
congelar e medir as vibrações em nível equivalente a um fônon”,
diz ele.
Alegre lembra que um dos recursos
utilizados para estudar efeitos quânticos em escala macroscópica
– assim considerado o sistema montado – tem sido a utilização
de temperaturas próximas ao zero absoluto. Por isso o primeiro
passo é levar o sistema ao estado fundamental – que é aquele
em que cessam todos os movimentos – baixando sua temperatura
global até poucas dezenas de milikelvin. Para chegar a esse
estado fundamental é necessário trabalhar com temperaturas
próximas do zero absoluto, o que é bastante complexo e caro,
por isso, afirma ele, “não baixamos a temperatura global do
sistema e optamos por trabalhar em uma temperatura de cerca
de 20 kelvin (cerca de -250 oC). Ou seja, em vez de baixar
a temperatura de todo o sistema criamos um caminho óptico
para que apenas o modo vibracional chegasse próximo do zero
kelvin”.
News& Views
Na secção News&Views
da mesma edição da Nature, Florian Marquardt,
que faz a apresentação do artigo, lembra o conhecido efeito
da luz solar que é capaz de empurrar sólidos, a exemplo do
que ocorre com a cauda dos cometas que se deslocam para o
lado oposto à sua incidência. Nos últimos anos os pesquisadores
aprenderam a aproveitar essas forças da luz no mundo nano
e usá-las para manipular as vibrações mecânicas de pequenos
objetos. Esclarece que a equipe do professor Oskar Painter
descreve como explorou a luz do laser para amortecer o movimento
de um ressonador nanomecânico. Acrescenta que o experimento
constitui a primeira tentativa bem-sucedida em expurgar todos
os fônons para fora do ressonador, deixando as vibrações do
sistema no estado de energia mais baixo possível permitido
pela mecânica quântica: o estado fundamental. Considera ainda
que os resultados pavimentam o caminho para a utilização da
luz na realização de muitos outros fenômenos quânticos físicos
em tais estruturas.
Alem de Thiago Alegre, participaram
da elaboração do artigo que trata do “Resfriamento a laser
de um oscilador nanomecânico até o seu estado quântico fundamenta”
(Laser cooling of a nanomechanical oscillator into its
quantum ground state) o pesquisador Markus Aspelmeyer
e o pós-doutorando Simon Gröbracher, do Vienna Center of Quantum
Science and Technology, e os doutorandos do Caltech Jasper
Chan, primeiro autor, Amir Safavi-Naeini, Jeff Hill e Alex
Krause.
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■ Publicações
Artigo:
Laser cooling of a nanomechanical oscillator into its quantum
ground state
Autores: Jasper Chan, Amir Safavi-Naeini,
Jeff Hill e Alex Krause, Markus Aspelmeyer, Simon Gröbracher,
Thiago Alegre
Revista Nature
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