| |
Na própria
pele
Bióloga
desenvolve gel
anestésico à base de ropivacaína
encapsulada em nanopartículas
ISABEL
GARDENAL
O
estudo de mestrado da pesquisadora Sheila Maria Stoco, apresentado
ao Instituto de Biologia (IB), resultou no desenvolvimento
de um gel anestésico à base de ropivacaína 2% encapsulada
em nanopartículas de alginato-quitosana. A formulação apontou,
no trabalho, maior eficiência anestésica em relação a outras
testadas em camundongos com um tempo de analgesia superior
a 600 minutos de duração, período equilavente a dez horas
de anestesia tópica. A proposta da pós-graduanda é o uso da
ropivacaína como anestesia dérmica, hoje inexistente no mercado.
As aplicações, segundo a autora do estudo, podem ser as mais
variadas, sendo a mais promissora para a área de Odontologia,
que visa eliminar de vez o uso das agulhas. No momento, avalia-se
inclusive a possibilidade de transformar a formulação em produto.
Na dissertação, orientada
pela professora colaboradora do IB e professora adjunta da
Universidade Federal do ABC Daniele Ribeiro de Araújo e pela
docente do Departamento de Bioquímica do IB Eneida de Paula,
também foram realizados testes de viabilidade celular, que
permitiram constatar que o gel desenvolvido não apresentou
potencial irritativo para a pele de animais. Essa melhor formulação
exibiu ainda uma boa penetração através da pele, um reduzido
time lag (que é o tempo para o início da ação, que está em
aproximadamente 35 minutos) e uma citotoxicidade inferior
a 50%, tanto em fibroblastos 3T3 quanto em células de melanoma
murino – as células modelo de citotoxicidade avaliadas, as
quais foram cultivadas no Laboratório de Biomembranas e cedidas
pelo professor do IB Marcelo Lancellotti.
Conforme a pesquisadora,
a ropivacaína – pertencente à classe das aminas amidas – demonstrou
ser um anestésico local semelhante à bupivacaína (outra droga
potente) em termos de tempo de analgesia, mas trouxe menor
toxicidade aos sistemas nervoso central e cardiovascular.
Outros pontos favoráveis foram que o anestésico não induziu
a meta-hemoglobinemia (uma condição na qual se verificam níveis
anormais de hemoglobina oxidada, que são incapazes de se ligar
ao oxigênio para efetuar seu transporte às células, ocasionando
hipóxia tecidual) e nem o potencial alergênico de outros anestésicos
tópicos, como a benzocaína e a lidocaína, os mais habitualmente
utilizados e disponíveis comercialmente. “Nosso estudo basicamente
consistiu em produzir formulações que continham a ropivacaína
em uma base-gel associada a diferentes promotores de absorção
ou a carreadores como nanopartículas de alginato-quitosana”,
explica.
Apesar da ropivacaína ser
indicada hoje com boa eficácia, predominantemente em casos
como bloqueios regionais e em anestesias epidurais (chamadas
também peridurais), no estudo de Sheila Stoco, que é bióloga
de formação, ela trouxe uma nova aplicação para a ropivacaína
na linha de anestesia tópica. Anteriormente a droga era empregada
de uma forma bastante restrita: por via infiltrativa.
A grande vantagem do novo
gel, que provavelmente poderá ser adotado em procedimentos
ambulatoriais, é que ele deve ser prescrito como adjuvante
antes de se iniciar a execução da anestesia local, caso novos
estudos complementares mostrem eficácia e segurança para a
sua efetiva introdução clínica. O intuito é amenizar a dor
e a ansiedade dos procedimentos cirúrgicos, principalmente
dermatológicos. Com ele, consegue-se eliminar, por exemplo,
o incômodo da picada da agulha ao se realizarem as remoções
de tatuagens, punções venosas, curetagens e biópsias, representando
um enorme avanço dentro da prática clínica.
Das várias formulações experimentadas
na dissertação, comenta a bióloga, a mais exitosa foi a que
empregou ropivacaína 2% encapsulada em nanopartículas de alginato-quitosana.
E tal resultado foi em grande parte atingido graças a um trabalho
colaborativo envolvendo o professor Leonardo Fernandes Fraceto,
docente da Unesp-Sorocaba, que preparou as nanopartículas,
e a pós-graduanda Sheila Stoco, que fez a encapsulação da
ropivacaína.
Por associação desses processos,
conseguiu-se obter um gel que sinalizou tanto uma melhor performance
quanto uma melhor penetração na pele em relação a todas as
outras formulações. De acordo com a orientadora da dissertação,
não foram, porém, realizados estudos em mucosa. “Os estudos
de permeação efetuados para verificar o fluxo de penetração
do gel através da pele e o tempo para início de ação foram
de permeação in vitro, utilizando-se como modelo pele de orelha
de porco”, enfatiza Daniele Ribeiro. Esta investigação foi
feita dentro da linha de pesquisa de anestésicos locais, coordenada
pela professora Eneida de Paula.
A intenção agora é efetuar
estudos de biocompatibilidade na pele de roedores e em pele
humana para ver se a formulação final não será responsável
por provocar lesões aos tecidos (se ocasiona necrose ou se
tem algum potencial inflamatório), além de estudos de microscopia
com focal que colaborem para esclarecer em quais regiões da
pele a ropivacaína está penetrando. “Temos atualmente o melhor
estudo para observar o seu poder de penetração e pretendemos
buscar aplicação odontológica e em procedimentos do segmento.
Esse é o nosso principal objetivo, bem como notar a possibilidade
da utilização do gel na anestesia pulpar e gengival”, expõe
a pesquisadora. Não obstante os presentes resultados indicarem
que a formulação que está sendo estudada possui viabilidade
para uso clínico, tornam-se necessárias ainda outras investigações
complementares que sejam capazes de atestar se de fato há
eficácia e segurança suficientes para que o produto seja introduzido
na prática clínica, realça.
....................................................................
■ Publicação
Tese: “Liberação de ropivacaína
através da pele: aspectos biofarmacêuticos da incorporação
de promotores de absorção e da encapsulação em nanopartículas”
Autora: Sheila Maria Stoco
Orientadoras: Daniele Ribeiro de Araújo e
Eneida de Paula
Unidade: Instituto de Biologia (IB)
Financiamento: Fapesp
....................................................................
Ropivacaína foi introduzida
em 1996
O primeiro anestésico
tópico utilizado foi a cocaína. Historicamente deve-se ao
oftalmologista Carl Kooler, em 1884, a descoberta da anestesia
tópica com a sua utilização isolada por Albert Newman em
1959, proveniente das folhas de Erythroxylon coca.
A lidocaína foi o
primeiro anestésico do tipo amida introduzido no mercado
em 1948 nos Estados Unidos, sendo o anestésico local mais
empregado no mundo e também o mais estudado, por suas propriedades.
Atualmente ela é empregada como padrão para indicar a potência
de outros compostos anestésicos.
A ropivacaína foi
introduzida na prática clínica em 1996 e é, no instante,
a analgesia obstétrica preferida pelos profissionais médicos.
Muitos anestésicos
modernos partilham propriedades estruturais e efeitos clínicos
com o éter, cuja aplicação como anestésico foi demonstrada
pela primeira vez em público por William Morton, dentista
de Boston, em 1846. Desde então, a anestesia é utilizada
em mais de 40 milhões de pacientes a cada ano, somente na
América do Norte. No entanto, os avanços que partem da época
de Morton vieram basicamente do desenvolvimento de complexos
sistemas de aplicação de medicamentos e das estratégias
para o controle dos perigos e efeitos colaterais da anestesia.
|
|