MANUEL
ALVES FILHO
Linha
de pesquisa conduzida no Instituto de Biologia (IB) da Unicamp
investiga as propriedades das fibras elásticas, presentes
em tecidos que sofrem estresse mecânico. Elas são as responsáveis,
por exemplo, pela capacidade do pulmão de se inflar e retornar
à posição original durante o processo de respiração. Um
dos estudos concluídos recentemente pelo grupo foi desenvolvido
para a dissertação de mestrado da biomédica Tallita Vassequi
da Silva, sob orientação do professor Claudio Chrysostomo
Werneck. Ensaios realizados por ela com animais submetidos
à angioplastia sugerem que a proteína denominada MAGP1,
um dos componentes das fibras elásticas, desempenha papel
relevante na formação da reestenose (novo estreitamento)
das artérias. A pesquisadora apurou, ainda, que o uso do
losartan, uma droga comercial indicada para o tratamento
da hipertensão, é eficaz na redução da neoíntima, como esse
tipo de obstrução também é chamada.
De acordo com o professor Werneck, durante
algum tempo a ciência acreditou que as fibras elásticas
tinham uma função puramente estrutural. Atualmente, porém,
o enfoque mudou. Cada vez mais, sabe-se que elas desempenham
outros papéis, como a regulação de determinados hormônios
e fatores de crescimento. “Nossa ideia principal é poder
estudar essas moléculas focando principalmente a questão
da formação da neoíntima e de trombos. Estamos tentando
entender como esses processos ocorrem, a partir de ensaios
com animais geneticamente modificados”, explica. O docente
lembra que a parede das artérias é formada por camadas alternadas
de células e fibras elásticas.
Quanto maior for a pressão a que o sistema
está submetido, maior é o conteúdo dessas camadas, que se
assemelham a lâminas. “Isso acontece porque o vaso tem que
ter a capacidade de se estender e depois se acomodar, de
acordo com a pressão exercida pelo batimento cardíaco. O
que nós fazemos é analisar como as fibras elásticas são
formadas e como possíveis defeitos nessas moléculas podem
levar ao desencadeamento de algum tipo de doença”, acrescenta.
Conforme Tallita, o principal procedimento é tentar mimetizar
o que acontece na angioplastia. A cirurgia consiste em desobstruir
a artéria, introduzindo em seu interior um cateter com um
minúsculo balão inflável na ponta.
Nos seres humanos, é comum ocorrer a reestenose
alguns meses depois do procedimento. “A cirurgia é importante,
mas também é bastante traumática. Quando ocorre uma lesão
na parede do vaso, as células que estavam presas entre as
lâminas, e que tinham o seu crescimento inibido, tendem
a migrar para o interior do vaso e começam a se multiplicar.
Decorrido algum tempo, esse vaso volta a ser fechado”, detalha
o professor Werneck. Para tentar entender melhor como o
problema se dá, Tallita usou camundongos modificados geneticamente,
que apresentam deficiência da proteína MAGP1. Para ter um
padrão de comparação, ela também utilizou animais selvagens
sem a referida deficiência.
Tanto os roedores modificados geneticamente
quanto os selvagens, conforme a autora da dissertação, foram
submetidos à cirurgia modelo de angioplastia. “Apuramos
que esses camundongos, depois de submetidos à angioplastia,
desenvolveram mais neoíntima que o grupo constituído por
indivíduos selvagens. Ou seja, os resultados sugerem que
a proteína de fato exerce um papel importante na formação
da reestenose”, afirma. Como complemento do seu estudo,
a biomédica também submeteu os camundongos deficientes em
MAGP1 e os selvagens a um tratamento de quatro semanas com
o losartan. O professor Werneck assinalada que a droga já
é vendida comercialmente, indicada para o controle da hipertensão.
Entretanto, também vem sendo testada por um pesquisador
norte-americano no tratamento de uma doença denominada Síndrome
de Marfan, cujo desenvolvimento está relacionado com uma
menor quantidade de fibrilinas, que também compõem as fibras
elásticas. As pessoas acometidas por essa doença apresentam
membros excessivamente longos, além de problemas em outras
estruturas do corpo, como pulmões, olhos, coração e vasos
sanguíneos.
“Como sabíamos que o uso do losartan está
apresentando resultados positivos no tratamento experimental
da Síndrome de Marfan, resolvemos utilizá-lo no nosso estudo,
para verificar se ele também poderia ser efetivo neste tipo
de abordagem. Assim, constituímos quatro grupos, da seguinte
forma: deficientes em MAGP1 tratados com losartan e com
placebo e selvagens também trados com a droga e placebo.
Os grupos tiveram a pressão arterial aferida e, em seguida,
foram submetidos à angioplastia. Observamos que todos os
animais eram normotensos [apresentavam pressão arterial
normal]. Também verificamos que o tratamento com o losartan
resultou na diminuição da formação da neoíntima em comparação
com os camundongos que receberam somente placebo. Por fim,
identificamos que os roedores deficientes em MAGP1 apresentaram
maior formação de neoíntima se comparados com os selvagens”,
relaciona Tallita.
De acordo com o professor Werneck, um dos
próximos passos, agora, é tentar compreender melhor como
o losartan está atuando. “O fato de bloquearmos eventualmente
um receptor não nos dá necessariamente a informação do que
está acontecendo com a molécula ligante. Não sabemos, por
exemplo, se ela está tendo um aumento de síntese ou não.
Precisamos continuar investigando isso em modelo animal,
para tentar ampliar o conhecimento acerca do tema. O objetivo
final, obviamente, é propor um tratamento que possa ao menos
minimizar os efeitos deletérios da angioplastia”, diz. O
estudo desenvolvido por Tallita contou com bolsa concedida
pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo
(Fapesp). A linha de pesquisa coordenada pelo docente do
IB conta com financiamento da própria Fapesp e do Conselho
Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
..............................................................
■ Publicação
Dissertação: “Avaliação
da função da MAGP1 na formação de neoíntima”
Autora: Tallita Vassequi da Silva
Orientador: Claudio Chrysostomo Werneck
Unidade: Instituto de Biologia (IB)
Financiamento: Fapesp e CNPq
..............................................................