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Estudo revela
ação de gene
para crescimento de planta
Trabalho que rendeu artigo na Plant
Phisiology, está relacionado ao
melhoramento da cana-de-açúcar
ISABEL
GARDENAL
Pesquisa
recente desenvolvida no Centro de Biologia Molecular e Engenharia
Genética (CBMEG) com a planta modelo Arabidopsis thaliana
revelou que o AtbZIP63, “um gene que regula outros genes”,
tem uma participação relevante no ajuste do crescimento e
do desenvolvimento dessa planta, integrando a disponibilidade
de energia obtida através da fotossíntese com a de água no
solo (estresse hídrico). O trabalho gerou um artigo que acaba
de ser publicado na revista norte-americana Plant Phisiology.
Resultado do Bioen, projeto temático da Fundação de Amparo
à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) relacionado com
Bioenergia, a investigação está focada no melhoramento da
cana-de-açúcar e na compreensão como as plantas conseguem
otimizar a conversão de energia através da fotossíntese para
ser transformada em biomassa, seja celulose ou açúcar.
O que se percebeu foi que
esse gene é capaz de combinar duas informações importantes
quando se trata de crescimento e desenvolvimento. A primeira
das informações é como estão suas reservas de energia na forma
de glicose – carboidrato essencial a praticamente todas as
formas de vida – e onde está contida a energia química e o
carbono para a construção das moléculas da vida. Já a segunda
informação é como está a disponibilidade de água no solo,
informação codificada na quantidade de um dos hormônios mais
importantes para as plantas, o ácido abscissíco (ABA), que
sinaliza para todo o organismo se há água suficiente no solo
para que ela possa crescer normalmente ou se precisa fazer
alguns ajustes.
O biólogo Cleverson Carlos
Matiolli – autor do trabalho, escrito em colaboração – reporta
que o entendimento de como esse processo de ajuste ocorre
pode ser fundamental à compreensão de como a planta lida com
as variações que ocorrem no ambiente, principalmente em tempos
em que as perspectivas de mudanças climáticas podem ocorrer
nas próximas décadas devido ao aquecimento global. “Entender
como as plantas conseguem lidar com o estresse hídrico e com
o uso de energia (obtido na fotossíntese e acumulada na forma
de açúcares para crescer e se desenvolver) pode fornecer pistas
que poderão ser empregadas futuramente para a manipulação
de outras plantas que, diferentemente dessa planta modelo,
têm interesse econômico, como por exemplo a cana-de-açúcar
ou o eucalipto. Estas plantas, assim como a planta modelo
Arabidopsis thaliana, também precisam usar estas
informações sobre as reservas de energia e disponibilidade
de água para que possam crescer e acumular sacarose e celulose”,
contextualiza.
No estudo, Matiolli procurou
entender como as plantas são capazes de se desenvolver e,
junto do seu desenvolvimento normal, adaptar-se às condições
variáveis do meio, inclusive com o estresse. A Arabidopsis
thaliana, recorda ele, é a primeira planta cujo genoma
foi completamente sequenciado e que vem sendo usada como organismo
modelo para estudo da biologia molecular vegetal nas últimas
duas décadas. É uma planta modelo como o camundongo é modelo
de estudo de mamíferos e a Escherichia coli é modelo
de estudo de microbiologia. Ela foi escolhida há anos devido
a algumas características especiais que possui, como um ciclo
de vida curto, facilidade de gerar e selecionar mutantes,
e o fato de ser um genoma bastante compacto dentre as plantas,
o que traria uma maior facilidade de ser sequenciado.
Otimização
O biólogo buscou compreender
como as plantas conseguem otimizar o uso da energia obtida
através da fotossíntese, como ela estabelece um protocolo
de uso balanceado dessa energia para o seu desenvolvimento
e crescimento num ambiente que varia constantemente.
Durante
o dia, explica ele, a planta é agraciada pela luz do sol e
produz compostos de carbono através da fotossíntese. Boa parte
desta energia é canalizada para o seu crescimento. O seu excedente
é reservado sob a forma de compostos de carbono, mais especificamente
de amido, para que, durante a noite, esse amido tenha uma
quantidade suficiente de energia para que a planta possa continuar
crescendo e se desenvolvendo. “A planta cresce ao longo das
24 horas do dia”, pontua. Mas essa energia armazenada durante
o dia necessita ser empregada de modo otimizado.
A ação do gene AtbZIP63 varia
de acordo com o dia e a noite, obedecendo a um ciclo circadiano,
que nada mais é que um relógio biológico que os organismos
seguem. Sua atividade aumenta durante a noite e diminui durante
o dia, e esta sua variação é uma pista valiosa de que ele
está envolvido nestes ajustes que são necessários nas transições
dia-noite. “O relógio biológico ajuda as plantas a preverem
as mudanças que acontecerão quando a noite chegar e quando
o dia amanhecer, preparando a sua adaptação e o uso das reservas”,
afirma o pesquisador.
É claro que há ainda a possibilidade
de existirem estresses provocados por patógenos (como bactérias,
vírus e fungos) e pouca disponibilidade de água no solo (estresse
hídrico), reduzindo a eficiência de crescimento. A planta
precisa se adequar a estas situações, adverte Matiolli, e
tentar usar da melhor forma possível o que tem.
Por outro lado, como ela consegue
fazer uso dessas reservas de maneira eficiente? O autor do
artigo explica que nesse contexto entra em ação o gene estudado
– conhecido como fatores reguladores de transcrição (FTs).
Eles atuam regulando o processo de ativação e de inativação,
em geral muito significativo, de múltiplos genes que são centrais
na adaptação da planta a uma nova condição, entre elas a presença
ou não de luz do sol.
No caso das plantas, isso
é preponderante já que, durante o dia, elas têm um aporte
de energia do sol através da fotossíntese (com a conversão
dessa energia do sol) e à noite, não tendo mais essa energia,
elas precisam utilizar as suas reservas. A previsão da planta
serve para prevenir carências de energia e de compostos de
carbono, para continuar crescendo e se desenvolvendo. No ciclo
dia-noite, ela tem uma mudança de fisiologia, mostrando um
metabolismo de dia e outro de noite. Fazem parte dessa mudança
também os genes que são ativados ou desativados, desde que
relacionados com o uso da energia. Durante a noite, a planta
não precisa produzir proteínas ou ativar genes ligados à fotossíntese.
Precisa, antes, ativar genes responsáveis pela mobilização
das reservas.
Adversidades
A expressão do gene AtbZIP63,
da família bZIP (Basic Leucine Ziper), também modifica: durante
o dia, ela cai e durante a noite aumenta, acompanhando o ciclo
circadiano. Sendo esse um gene que regula outros genes, os
“regulados” vão em geral obedecer o mesmo padrão de oscilação.
“Recentemente, vimos que o regulador de transcrição rege processos
relacionados ao uso de amido e de energia contida nele, pela
reserva durante o dia. Ativa e inativa genes que vão atuar
no controle do uso do amido durante a noite.” Esse pode ser
um dos aspectos como esse gene trabalha.
O que se observou na pesquisa
de Matiolli, orientada pelo docente do CBMEG Michel Vincentz,
foi que o mutante (uma planta que não tem esse gene ativo)
apresenta problemas de desenvolvimento e de crescimento. Essa
dificuldade tem uma íntima relação com o seu possível papel
no controle do uso do amido e com o desenvolvimento da parede
celular. Já no que tange ao fator de transcrição, esse gene
ainda regula um conjunto de outros genes do estresse energético,
situação em que se verifica escassez aguda de energia.
Cleverson pondera que a planta
necessita lidar com esse tipo de adversidade. É o caso de
uma situação em que por uma semana inteira o dia fica nublado
e com pouca luz do sol. A planta não consegue acumular muita
energia através da fotossíntese. Então ela começa a entrar
numa carência de energia sem a luz do sol para se alimentar.
Como a planta consegue responder
a essa escassez aguda de energia? Esse gene encara um papel
decisivo. A tendência natural, se essa condição de estresse
energético prosseguir por muito tempo, conta Matiolli, é que
ela diminua a sua eficiência reprodutiva, produzindo menos
sementes, ou morra. Uma atitude natural da planta é buscar
a otimização do seu desenvolvimento até a reprodução, para
que ela consiga – mesmo com condições estressantes de energia
– lidar com isso. “Ela vai tentar até o último instante se
reproduzir e gerar descendentes”, assinala. Agora, se a planta
não trabalhar muito bem com esse estresse, poderá ter um crescimento
e um acúmulo pouco eficientes. Não conseguirá se desenvolver
adequadamente e acumular biomassa da forma como deveria, lamenta.
Este estudo foi desenvolvido no Laboratório de Genética de
Plantas, na linha de pesquisa de Genética Vegetal.
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■ Publicação
Matiolli, C. C.; Tomaz, J.P., Duarte,
G.T.; Prado, F.M.; Del Bem, L.E.V.; Silveira, A.B.; Gauer,
L.; Corrêa, L.G.; Drumond, R.D.; Viana, A.J.C; Di Mascio,
P.; Meyer, C.; Vincentz , M.G.A. The Arabidopsis bZIP gene
AtbZIP63 is a sensitive integrator of transient ABA and glucose
signals. Plant Physiology, 13, 2011.
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