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Tese avalia bem-estar, sono e saúde de idosos
Levantamentos feitos em Campinas
e em 3 regiões
do Estado de SP fundamentaram artigos
EDIMILSON MONTALTI

Tese de doutorado
desenvolvida na Faculdade de Ciências Médicas (FCM) avaliou
o estado e os comportamentos de saúde, a duração do sono e
o sentimento de felicidade de idosos de Campinas e de outras
três regiões do Estado de São Paulo. No quesito felicidade,
77,2% dos idosos de Campinas disseram sentir-se felizes. A
saúde foi o aspecto que mais pesou no sentimento de felicidade
de homens e mulheres acima de 60 anos. Outro ponto inédito
foi a relação da duração do sono com a qualidade de vida em
saúde. A tese rendeu três artigos, um dos quais já publicado.
De acordo
com a educadora física Margareth Guimarães Lima, cada artigo
é um recorte dentro da tese de doutorado “Qualidade de vida
em saúde e bem-estar subjetivo em idosos. Um estudo de base
populacional”, defendida por ela no programa de pós-graduação
em Saúde Coletiva da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da
Unicamp. A orientadora foi a professora e médica epidemiologista
Marilisa Berti de Azevedo Barros.
O primeiro
artigo avalia a atividade física, o consumo de bebida alcoólica
e o tabagismo como comportamentos relacionados à saúde. Para
este estudo, foram entrevistados 1.958 idosos residentes em
Botucatu, Campinas, Itapecerica da Serra, Embu, Taboão da
Serra e região da subprefeitura do Butantã, de São Paulo.
A pesquisadora usou os dados do Inquérito Multicêntrico de
Saúde no Estado de São Paulo (Isa-SP) de 2001 e 2002.
Nos outros
dois artigos, Margareth avaliou a duração do sono e a percepção
do sentimento de felicidade a partir de entrevistas com 1.431
idosos residentes apenas em Campinas. Para estas pesquisas,
ela utilizou os dados do Inquérito de Saúde do Município de
Campinas (Isacamp) de 2008. O primeiro artigo já foi publicado
na Revista de Saúde Pública e os outros dois acabam de ser
submetidos.
A pesquisadora
utilizou o questionário SF-36 (The medical outcomesstudy 36-item
short-formhealthsurvey) para as entrevistas. Ele mede em escalas
a capacidade funcional, dor, vitalidade, saúde metal, aspectos
de limitação física, emocional e social, avaliando a qualidade
de vida em saúde de pacientes e de populações. Margareth é
a primeira autora no Brasil a publicar resultados de pesquisas
com idosos, em base populacional, usando o SF-36.
“Na cidade
de Campinas, o Isacamp 2008 incorporou o questionário SF-36
também em adultos. A intenção é aplicá-lo novamente no Isacamp
2013. Os dados são riquíssimos para pesquisa”, comentou Margareth.
Exercício, tabaco
e álcool
De acordo com a primeira pesquisa realizada com os idosos,
71% dos entrevistados não praticavam atividade física no lazer,
12% eram fumantes e 25% ingeriam bebida alcoólica ao menos
uma vez por semana. Apenas 13,6% dos idosos não apresentavam
nenhuma das doenças crônicas pesquisadas, enquanto 45,8% apresentavam
três ou mais.
A
análise dos dados também revelou que entre os idosos que praticavam
atividade física no lazer, a caminhada era o exercício mais
praticado (79%). A maior prevalência de sedentarismo e número
de morbidades foi encontrada nos idosos do sexo feminino,
com menor escolaridade e renda mais baixa.
Em relação ao tabagismo, verificou-se
o maior percentual de fumantes no sexo masculino com 60 a
69 anos, empregados e com renda menor do que um salário mínimo.
Entre os ex-fumantes, 2% haviam deixado de fumar há menos
de um ano, 17% entre um e cinco anos e 81%, há mais de seis
anos.
Quanto à ingestão de bebidas
alcoólicas, a prevalência foi maior entre os homens com idade
entre 60 a 69 anos, com maior nível de escolaridade e com
nenhuma das morbidades incluídas no checklist do inquérito.
As bebidas mais consumidas pelos idosos foram: cerveja (53%),
vinho (24%) e aguardente de cana (7%).
“Este estudo mostra que a
prática de atividade física associa-se a melhores condições
de saúde nas oito dimensões avaliadas pelo SF-36, principalmente
nos aspectos físicos e capacidade funcional do idoso. Essa
associação é observada incluindo os idosos que são insuficientemente
ativos. Os idosos que ingeriram bebida alcoólica moderadamente,
pelo menos uma vez por semana, apresentaram melhores condições
de saúde. Já os fumantes apresentaram o pior estado de saúde
em escalas do componente mental – depressão e ansiedade”,
explicou Margareth.
Duração do sono
O ciclo circadiano é um período de aproximadamente 24 horas
que funciona como um ciclo biológico, regulando o corpo dos
seres vivos segundo a luz solar. Problemas ou distúrbios do
sono são comuns na população. Dentre eles, estão a insônia,
a apneia, a narcolepsia (excesso de sonolência diurna e anormalidades
do sono REM), o bruxismo, a síndrome das pernas inquietas,
entre outros. O sono de boa qualidade e em quantidade adequada,
segundo alguns estudos, além de atuar na restauração diária,
melhora o humor e pode prevenir acidentes em decorrência de
ser benéfico para a memória e a concentração.
Este estudo analisou os dados
da população de Campinas com 60 anos ou mais que respondeu
a questão “Quanto tempo, em média, você passa dormindo em
dia de semana? E em dia de final de semana?”, do Isacamp de
2008. Foram entrevistados 1.418 indivíduos com idade média
de 69,5 anos, sendo que 56,9% deles eram mulheres.
De acordo com os resultados,
56% dos idosos mantêm um padrão de sono entre sete a oito
horas, sendo que 20,5% e 23,3% dos idosos dormem seis horas
ou menos e nove horas ou mais, respectivamente. A pesquisa
detectou que a duração do sono diferente de sete a oito horas
se associa a um pior estado de saúde, de maneira um pouco
diferente entre os sexos.
Segundo o tempo de sono, o
padrão de sono curto, de seis horas ou menos, esteve associado
às piores condições de saúde mental em ambos os sexos, comparando
com o padrão de sono médio, de sete a oito horas. O padrão
de sono longo, maior que dez horas, associou-se negativamente
na população masculina com todas as escalas do SF-36. Nas
mulheres, a duração do sono entre nove e dez horas ou mais,
associou-se, respectivamente, às piores condições de capacidade
funcional e saúde mental.
No Brasil, são escassos os
estudos em base populacional sobre a duração do sono. A maioria
dos estudos é voltada aos distúrbios do sono. No mundo todo,
segundo Margareth, há apenas um outro estudo já publicado
sobre a relação do tempo de sono com as escalas avaliadas
pelo SF-36, em idosos.
“O sono de boa qualidade e
em quantidade adequada, além de atuar na restauração diária,
melhora o humor e pode prevenir acidentes em decorrência de
ser benéfico para a memória e a concentração. Esta pesquisa
contribui para o avanço do conhecimento sobre esta questão,
ao analisar como está o sono na população idosa de Campinas
e detectar que o excesso ou a privação do sono associam-se
à pior saúde do idoso”, explicou a pesquisadora.
Felicidade
O sentimento de felicidade constitui um dos indicadores de
bem-estar que tem, recentemente, recebido atenção no campo
da investigação científica da saúde. Ele pode ser um indicador
fundamental para completar os indicadores objetivos de qualidade
de vida, como o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) e a
expectativa de vida saudável.
Margareth buscou detectar os fatores demográficos, socioeconômicos,
de comportamentos e estado de saúde que se associam ao sentimento
de felicidade nas últimas quatro semanas na população idosa
de Campinas. Ela utilizou também os dados do Isacamp de 2008.
De acordo com a pesquisa,
35,4% dos idosos disseram que se sentiam felizes o tempo todo;
41,8% disseram que se sentiam felizes a maior parte do tempo;
14,5%, em alguma parte do tempo; e 7,2%, em pequena parte
do tempo. Entre os idosos que responderam que não se sentem
felizes o tempo todo, estão os viúvos, os obesos, os que dormem
mal e com um padrão de sono superior a dez horas.
Já entre os 35,4% de idosos
que responderam que se sentem felizes o tempo todo, a pesquisa
apontou que estes campineiros trabalham, ingerem bebida alcoólica
ocasionalmente, praticam pelo menos alguma atividade física,
consomem frutas, legumes e verduras todos os dias e têm uma
percepção da própria saúde como excelente ou muito boa.
“O sentimento de felicidade
pode motivar o engajamento em comportamentos mais saudáveis.
Independentemente da situação socioeconômica ou cultural,
o fator saúde é o que mais pesou no sentimento de felicidade
para o idoso de Campinas”, disse Margareth.
“O uso de um indicador como
este permite que se avalie o atendimento da meta final que
as ações de saúde procuram: o bem-estar das pessoas e da população.
E a pesquisa mostra que o sentimento de felicidade está fortemente
relacionado com o sentir-se saudável. Desta forma, este indicador
é importante para direcionar as políticas públicas de saúde”,
disse Marilisa Berti, orientadora das pesquisas.
Publicações
Artigo
LIMA, MG; BARROS, MBA ; CÉSAR CLG ; CARANDINA, L. ; GOLDBAUM
M ; ALVES MCGP . Health-related behavior and quality of life
among the elderly: a population-based study. Revista de Saúde
Pública 2011;(45): 485-93.
Tese: “Qualidade
de vida em saúde e bem-estar subjetivo em idosos. Um estudo
de base populacional”
Autora: Margareth Guimarães Lima
Orientadora: Marilisa Berti de Azevedo Barros
Unidade: Faculdade de Ciências Médicas (FCM)
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