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Em socorro do manguezal
Análise de diversidade gera dados
que podem subsidiar ações de preservação

Um dos
ecossistemas mais negligenciados tanto no Brasil quanto no
restante do mundo, o manguezal está sendo objeto de uma pesquisa
inédita e abrangente no país, conduzida por pesquisadores
do Departamento de Biologia Vegetal do Instituto de Biologia
(IB) e do Laboratório de Análise Genética e Molecular do Centro
de Biologia Molecular e Engenharia Genética (CBMEG), ambos
da Unicamp. Os cientistas estão investigando a diversidade
genética das plantas que compõem esse ambiente, a partir de
amostras coletadas desde o Norte até o Sul da costa brasileira.
O objetivo é criar um banco de dados que possa subsidiar a
tomada de decisões voltadas à preservação das espécies.
“Queremos
conhecer para poder preservar”, afirma a professora Anete
Pereira de Souza, coordenadora do estudo. Segundo ela, assim
que estiver concluído, o trabalho deverá integrar outras duas
pesquisas, uma em nível continental e outra em âmbito mundial.
Os manguezais
são ecossistemas que funcionam como uma interface entre o
mar e os rios que nele deságuam. São ambientes muito ricos
em nutrientes, características que os tornam fundamentais
ao desenvolvimento de grande número de espécies animais, algumas
delas de interesse comercial, como robalos, mariscos e camarões.
“Além de fornecer alimentos para peixes, moluscos e crustáceos,
o manguezal também funciona como berçário para diversas espécies,
que utilizam o local para depositar seus ovos. Ou seja, à
medida que esse ambiente é degradado, toda essa fauna também
é afetada de modo negativo”, explica Gustavo Maruyama Mori,
doutorando que integra a equipe coordenada pela professora
Anete.
Foi o
estudo proposto por ele que deu início à linha de pesquisa.
A proposta foi também abraçada pela professora Iracilda Sampaio,
da Universidade Federal do Pará (UFPA) e pela pesquisadora
Maria Imaculada Zuchi, do Instituto Agronômico de Campinas
(IAC), que integram o projeto desde a sua implantação. Posteriormente,
a também doutoranda Patrícia Mara Francisco incorporou-se
à equipe. Graças à ampliação e à relevância alcançada pelo
trabalho, relata a professora Anete, foi que ele passou a
integrar o projeto Biota Marinho/Fapesp, o que lhe valeu novos
investimentos, seja na concessão de bolsas de estudos, seja
no financiamento de viagens para a realização de coletas de
materiais ou participação em eventos científicos nacionais
e internacionais. A preocupação em analisar a diversidade
genética dos manguezais, diz Patrícia Francisco, vem da constatação
de que esses ecossistemas vêm sendo destruídos ao longo dos
últimos anos, em grande parte por causa da ação do homem.
Dados
disponíveis indicam que o Brasil, considerado o segundo país
em extensão de florestas de mangue, perdeu entre os anos de
1983 e 1997 praticamente metade (46,4%) da área original ocupada
por esse ambiente. “Isso ocorre, entre outras coisas, por
causa da pressão imobiliária. É comum vermos condomínios sendo
construídos em áreas próximas ou originalmente ocupadas por
manguezais. Uma das consequências dessa ação é alteração da
chegada da água ao ecossistema. Isso, por sua vez, reduz a
oferta de crustáceos e pescados, que são fonte de alimentação
e renda de muitas famílias. Estas, por sua vez, são forçadas
a migrar para a periferia das médias e grandes cidades, em
busca de alternativas de sobrevivência. Ou seja, ao destruirmos
o manguezal nós não estamos agredindo apenas a natureza, mas
também gerando problemas sociais muito complexos”, adverte
Gustavo Mori.
Para
desenvolver a investigação em torno da diversidade genética
dos manguezais brasileiros, os dois doutorandos coletaram
amostras de 13 pontos ao longo do litoral, desde a Ilha de
Marajó, no Pará, até o Estado de Santa Catarina. Estão sendo
analisadas cinco das seis espécies de árvores de mangue encontradas
no país. Os instrumentos de análise são os marcadores moleculares.
Conforme Gustavo Mori, os resultados preliminares apontam
para uma divisão muito clara a partir do Rio Grande do Norte.
Assim, em direção ao Norte são encontradas, dentro das espécies
de mangue, populações muito diferentes, em termos genéticos,
das identificadas ao Sul. “Essa divisão pode ser influenciada
por uma corrente marítima que vem da África, e se divide em
corrente do Caribe e corrente do Brasil”, aventa Gustavo Mori.
Esse tipo de informação genética sobre os manguezais brasileiros,
que até então era desconhecida pela ciência, é de fundamental
importância para orientar medidas de preservação desse ecossistema,
como destaca a professora Anete.
De acordo
com ela, não basta coletar indivíduos de uma floresta e transplantá-los
para outra, com o intuito de recompor uma área degradada.
Muitas vezes, acrescenta Gustavo Mori, plantas de manguezais
próximos também são geneticamente muito distintas. “Nós verificamos
isso nas análises que fizemos de amostras coletadas em Ubatuba,
no Litoral Norte de São Paulo, e Cananéia, no Litoral Sul”,
esclarece o doutorando. “Se translocarmos indivíduos muito
diferentes de um manguezal para outro, não estaremos fazendo
reflorestamento, mas sim criando algo novo. Além disso, ninguém
sabe o que poderá acontecer ao longo do tempo com as plantas
diferentes que foram transplantadas. Afinal, um conjunto de
alelos específico e selecionado localmente ao longo de milhares
de anos é indispensável para que uma dada população se mantenha
num determinado local. Translocar sem levar esse dado em consideração
pode levar à extinção da floresta, visto que os indivíduos
introduzidos podem não ter a variabilidade genética necessária
para se adaptar ao novo local, se desenvolver e se multiplicar
ali”, complementa a professora Anete.
A grande
contribuição do trabalho, no entender dos pesquisadores, deverá
ser justamente na área de genética de conservação. “Nosso
objetivo é fornecer subsídios para que os gestores públicos
e organizações não governamentais adotem medidas corretas
para a recomposição de manguezais degradados. Aliás, nós já
temos mantido contato com pessoas do Rio de Janeiro e Ceará,
que trabalham com o manejo de parques estaduais. No Rio, por
exemplo, temos falado com o pessoal que atua na área da Baía
de Guanabara, onde será construído um complexo petroquímico
por causa da exploração do petróleo do pré-sal. Nas proximidades,
há uma área remanescente de mangue, que precisará ser reflorestada.
A partir dos nossos estudos, poderemos indicar para eles quais
conjuntos de plantas que podem servir a essa recomposição”,
relata Gustavo Mori.
Para o mundo
Assim que a pesquisa for encerrada, adianta a professora
Anete, ela deverá dar margem a outra, esta de amplitude
muito maior. “Queremos investigar a diversidade genética
dos manguezais no Hemisfério Ocidental. Para isso, vamos
utilizar as informações já disponíveis em bancos de dados,
como as relativas às áreas do Caribe, do Pacífico e de
alguns pontos da África. Com elas, poderemos complementar
nossos dados e estabelecer parâmetros de comparação. Um
dos objetivos é descobrir se e quanto a ação do homem
tem influenciado na variabilidade genética das plantas
do mangue”, adianta Gustavo Mori.
Além desse projeto, há
outro, ainda em fase de negociação, que planeja elevar
os estudos para o âmbito mundial. “Recentemente, participamos
de dois congressos científicos internacionais, nos quais
conhecemos grupos que trabalham com o mesmo tema na Indonésia
e no Japão. Em julho próximo, vamos participar de um evento
mundial no Sri Lanka, que tratará de assuntos como ecologia,
funcionamento e manejo de manguezais. Na oportunidade,
vamos conversar com outros pesquisadores interessados
nesse ecossistema, que tem sido negligenciado em todo
o planeta. Nosso propósito será estabelecer uma rede de
cooperação internacional para analisar como está a diversidade
genética dessas plantas em ampla escala”, diz Gustavo
Mori.
De acordo com a professora
Anete, as pesquisas em torno da diversidade genética dos
manguezais deverão abrir perspectivas para o desenvolvimento
de trabalhos semelhantes, mas voltados a outros ecossistemas
igualmente ameaçados. “Um caso clássico é o Cerrado brasileiro,
ambiente muito importante para inúmeras espécies vegetais
e animais e também para o homem. Esse bioma vem perdendo
espaço para as atividades de agricultura e pecuária. Também
nesse caso, poderíamos contribuir para orientar eventuais
ações de reflorestamento”, infere. Conforme a docente,
estudos do tipo dão uma satisfação especial para os cientistas,
pois eles podem ver os resultados de suas investigações
aplicados em benefício da natureza e, consequentemente,
da sociedade. “Como agrônoma de formação, gosto de ver
as coisas acontecendo”, pontua.
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