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À imagem e semelhança?
Pesquisa demonstra que busca de
jovens
por ‘corpo ideal’ pode causar transtornos
Musculatura
bem-desenvolvida e definida e baixo teor de gordura, especialmente
na parte superior do tronco. Este é um dos traços característicos
aos quais o profissional de educação física de academia precisa
estar atento, na opinião da doutora em educação física Ângela
Nogueira Neves Betanho Campana. O excesso de Drive for Muscularity,
relativo à busca deste tipo de musculatura, pode causar, segundo
Angela, a dismorfia muscular (transtorno dismórfico corporal
que ocorre em homens que apesar de grande hipertrofia se consideram
pequenos e fracos). Tese de doutorado sanduíche defendida
por ela sob orientação da professora Maria da Consolação,
da Faculdade de Educação Física (FEF) da Unicamp resultou
na validação de seis escalas para avaliação da imagem corporal
entre homens brasileiros jovens e uma modelagem de equações
estruturais para determinar a relação do Drive for Muscularity
com outros componentes atitudinais da imagem corporal desses
homens, entre os quais satisfação com o corpo, ansiedade físico-social
e valorização do ideal de corpo.
Parte do trabalho, referente
à validação psicométrica, foi desenvolvida na University Wetminster,
em Londres, sob orientação do professor Viren Swami. Na validação
das escalas no Brasil, com uma amostra de 878 homens jovens
de 18 a 39 anos e de variados níveis educacionais, perfis
profissionais, sedentários ou fisicamente ativos, Angela observou
que ser mais forte e mais musculoso está associado a valores
como ser mais bonito, feliz, saudável, realizado e confiante.
Para a construção do modelo teórico usado na modelagem de
equações estruturais, ela contou com um grupo focal formado
por estudantes de educação física, que responderam a temas
como a importância do corpo musculoso, os caminhos para a
construção do corpo musculoso, o preço para atingir o padrão
ideal e o preço que se paga por estar fora do ideal.
De acordo com a autora, o
ideal de corpo masculino manifestado pelo grupo fez eco com
o ideal de corpo comumente referido pela literatura, que envolve
musculatura desenvolvida e bem-marcada, baixo percentual de
gordura, sendo que o tórax, braços e abdome são os alvos de
maior investimento. O descanso, a boa alimentação, o treino
regular são os caminhos reconhecidos como adequados para a
construção deste corpo ideal, de acordo com as constatações
do trabalho.
Entre os participantes dos
grupos, a suplementação alimentar, devidamente orientada por
nutricionista, é uma forma lícita de “driblar” os limites
ou mesmo acelerar o crescimento muscular. De acordo com Angela,
seu uso e disseminação na academia são amplos, mesmo entre
aqueles não-atletas – para quem a princípio foram desenvolvidos
os suplementos alimentares. Já o uso do esteroide anabolizante,
na opinião da pesquisadora, é uma situação controversa. “Quem
usa não diz que usa; quem vende não diz que vende; o corpo
que resulta dele é ao mesmo tempo admirado e olhado com desconfiança,
uma vez que não é considerado fruto da disciplina ascética
da academia, mas como resultado de uma ‘trapaça’. O fato é
que ele existe fora das academias de fisiculturismo, nas academias
‘comuns’, e o corpo olhado com desconfiança é ao mesmo tempo
associado como o símbolo da masculinidade hegemônica”, acrescenta
Angela.
Para
Angela, o grupo focal também revela uma face cruel do mercado
profissional. “Em nossos grupos focais ficou explícito o reconhecimento
da expectativa que há sobre a aparência, já que são profissionais
que terão uma ação direta sobre os corpos de seus alunos (especialmente
em academias de ginástica)”, analisa. No corpo do profissional
de educação física do sexo masculino, a obrigatoriedade do
baixo percentual de gordura e da musculatura definida, o corpo
“sarado”, marcaria sua capacidade de trabalho. “Os estudantes
já sentem esta pressão sobre sua própria forma física e a
expectativa sobre o corpo do profissional de educação física
é real e perversa”, considera Angela.
As novas escalas, intituladas
Swansea Muscularity Attitudes Questionnaire, Drive for Muscularity
Scale, Body Esteem Scale, Body Appreciation Scale, Social
Physique Anxiety Scale e Masculine Body Ideal Distress Scal
estão à disposição de pesquisadores brasileiros para avaliação
da imagem entre homens jovens.
FEF valida novas
escalas
A tese de Ângela foi desenvolvida
no Laboratório de Imagem Corporal da FEF, criado em 2006 e
coordenado pela professora Maria da Consolação Gomes Cunha
Fernandes. De acordo com a pesquisadora, a parte da linha
de pesquisa voltada para o desenvolvimento de metodologias,
onde a tese se insere, tem interesse no desenvolvimento de
protocolos de avaliação de imagem corporal, criação e adaptação
cultural de escalas e validação de instrumento. Na página
do Laboratório, podem ser feitos downloads dos instrumentos
já validados pelo grupo e do software de avaliação perceptiva
da imagem corporal, criado no Laboratório.
No momento, estão sendo finalizadas
outras pesquisas metodológicas, adaptando transculturalmente
e validando no Brasil instrumentos internacionais de avaliação
da imagem corporal para idosos, mulheres de meia idade e com
câncer de mama. Além disso, está sendo criado no Brasil um
instrumento para avaliar a imagem corporal de cegos congênitos
e um instrumento para avaliar a checagem corporal em homens.
“Nosso foco está em trabalhos de intervenção que desenvolveremos
futuramente, por isso este envolvimento inicial com protocolos
de avaliação. A experiência corporal é base para o desenvolvimento
da imagem corporal. Compreender isso permite que os profissionais
de educação física tenham uma oportunidade não só de desenvolver
pesquisas coerentes, mas de oferecer ao seu aluno a oportunidade
de reconhecer-se melhor em suas potencialidades e limites”,
finaliza Angela.
Apreciação influencia
outros conceitos
Ao testar outros modelos de relações com uma amostra de
1.202 homens com o mesmo perfil dos participantes da validação,
Angela constatou que o modelo que melhor explica as relações
entre os conceitos estudados é aquele em que a aceitação
do corpo influencia todos os demais construtos. Ela explica
que também propôs uma influência direta da ansiedade físico-social
e do desconforto em relação ao corpo masculino ideal sobre
as atitudes em relação à musculatura e sobre os comportamentos
em busca da musculatura. Porém, apesar de os modelos testados
atenderam aos parâmetros de qualidade de ajuste, escolheu
o de aceitação corporal por apresentar um menor número
de resíduos. “Isso indica que sua proposição teórica explica
melhor os dados reais observados.”
A constatação do efeito
positivo da apreciação corporal foi inesperada, pois se
esperava uma relação negativa, já que a imagem corporal
positiva “protegeria” o sujeito de dar demasiada importância
à musculatura, da mesma forma que protege do excesso de
busca pela magreza, segundo Angela. “O perfil de nossa
amostra tinha maior tendência a ter uma Imagem Corporal
Positiva e a ter baixa a moderada ansiedade físico-social,
com moderado a alto desconforto em relação ao corpo masculino
ideal, assim como baixa a moderada Drive for Muscularity”,
explica.
De acordo com a pesquisadora,
desde a década de 1990, a insatisfação corporal é considerada
como um continuum, e não uma variável do tipo “tudo-ou-nada”.
Assim, a Drive for Muscularity varia desde níveis muito
baixos – que não são interessantes, pois a pessoa pode
ter menos disposição para cuidar de sua dieta, manter
um peso corporal adequado e de seus exercícios – a níveis
muito elevados – que podem ser encontrados na dismorfia
muscular –, passando por um nível ótimo, que se refletiria
num estilo de vida ativo, com alimentação balanceada,
sem excesso de gordura abdominal e um peso adequado.
Publicação
Tese:“Relações entre as dimensões da Imagem Corporal:
um estudo em homens brasileiros”
Autora: Angela Nogueira Neves Betanho Campana
Orientadora: Maria da Consolação Gomes Cunha
Fernandes Tavares
Unidade: Faculdade de Educação Física (FEF)
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