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Meu mundo é outro
Literatura utópica nas estantes brasileiras
Editora da Unicamp lança dois primeiros
títulos
de coleção que reúne obras inéditas em português
A
capacidade de imaginar outros mundos ou maneiras de viver
– com diferentes formas de organização política, econômica
e social – é primordial em tempos de crise ou quando se busca
analisar a própria realidade vivida. O Humanismo permitiu
ao homem renascentista entender que sua existência individual,
assim como o viver associado, são históricos, ou seja, variam
e dependem de ações humanas e não da vontade divina, como
se acreditava na era medieval. O homem percebeu então que
poderia tomar para si seu destino e construir sua história
com as próprias mãos – noção que deve ser sempre relembrada,
em qualquer época histórica.
Neste
sentido, a coleção Mundus Alter (Editora da Unicamp), organizada
por Carlos Eduardo Ornelas Berriel, professor do Departamento
de Teoria Literária do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL)
da Unicamp, chega em boa hora. “A coleção Mundus Alter é composta
de uma série de utopias literárias, essenciais para a compreensão
do imaginário político moderno. Trata-se de uma coleção de
traduções para a língua portuguesa desses textos, inéditos
em português, que inventaram e descreveram mundos outros,
que são na verdade imagens invertidas do nosso próprio mundo.
Longe de servirem para o escapismo político, as utopias são,
comumente, retratos irônicos, cáusticos e satíricos da época
de seus autores. Adotando a forma de relatos de viagens imaginárias,
de tratados e projetos sociais, as utopias foram, em seu meio
milênio de história, interlocutoras contínuas das sociedades
que as produziram e de suas teorias políticas, sendo muitas
vezes ela própria uma teoria e uma proposição política”, explica
o docente.
Os dois
primeiros livros da coleção serão lançados dia 20 de março,
em Campinas: A cidade feliz, de Francesco Patrizi da Cherso,
traduzido por Hélvio Moraes, e A terra austral conhecida,
de Gabriel de Foigny, vertido para o português por Ana Cláudia
Romano Ribeiro. Ambos tradutores são doutores em teoria e
história literária pela Unicamp, pesquisadores do Centro de
Pesquisa sobre Utopia (U_Topos), do IEL, e coeditores da Revista
Morus – Utopia e Renascimento, editada por Berriel. A coleção
Mundus Alter preenche uma lacuna não só nas universidades,
mas também nas estantes dos leitores brasileiros, já que há
pouquíssimos títulos utópicos à disposição em português. O
professor explica que, “dependendo do critério, é possível
listar muitas centenas de obras que podem ser consideradas
utopias. No entanto, em português, existe no máximo uma dúzia.
Além disso, as utopias já publicadas no Brasil muitas vezes
têm problemas de tradução, pois frequentemente são vertidas
não a partir do idioma original, mas de uma outra tradução.”
Berriel
acredita que há um interesse crescente sobre o tema e que
a prova disso seria um número cada vez maior de publicações
em todos os países sobre as utopias. Ele lembra que existem
vários centros de estudos utópicos nas grandes instituições
acadêmicas, e muitas coleções como a que a Editora da Unicamp
está lançando. Nesta entrevista, o professor discute a função
social da utopia nos dias de hoje, analisa os pontos em comum
entre ficção científica e utopia, argumenta sobre a influência
do individualismo na formação de utopias coletivas na sociedade
contemporânea e apresenta as próximas obras a serem lançadas
pela coleção.
Jornal
da Unicamp – Para começar, o que podemos entender como utopia?
Carlos Eduardo Berriel – Atualmente existe uma discussão
bastante avançada sobre o sentido histórico e literário da
utopia, e tivemos inclusive um grande congresso internacional,
aqui na Unicamp, visando avançar neste sentido.
Indubitavelmente, a utopia é um gênero literário, de composição
mista, pois engloba os campos de reflexão da política, da
ética, da religião, etc. Ao contrário da crença comum, a utopia
não é, dominantemente, uma visão ficcional do futuro, e sim
uma reflexão sobre o presente, considerado este como o complexo
de graves problemas sociais e políticos que alarmam o ambiente
cultural do utopista. A Utopia de Morus, por exemplo, é uma
reflexão satírica sobre os graves problemas que a Inglaterra
vivia com a dissolução da comunidade feudal e o surgimento
da sociedade capitalista.
A série das obras utópicas,
que principia com Thomas Morus, surge quando da substituição
da comunidade feudal pela sociedade moderna. De forma muito
breve, podemos dizer que a comunidade é uma forma de vida
coletiva em que seus membros possuem um lugar pelo simples
nascimento em seu âmbito. Pobres ou privilegiados, há lugar
para todos. Ao contrário, na sociedade moderna, este lugar
deverá ser obtido por um processo de concorrência e eliminação
dos derrotados. Na comunidade prevalece o costume e as normas
da tradição, na sociedade prevalece o interesse econômico.
Nas utopias clássicas não há propriedade privada e, consequentemente,
nem ricos nem pobres. Este fato, entretanto, não deve ser
visto como um prenúncio do socialismo, embora este movimento,
muitas vezes, o considere uma forma de ancestralidade. Já
na República de Platão há o comunismo de bens, e mesmo o cristianismo
primitivo é fortemente considerado pelos autores utópicos.
A utopia nasce, no começo
do século XVI, interessada em sopesar os efeitos desta nova
forma de vida associada, com a qual nascia o Estado e a sociedade
burguesa. As utopias, então, experimentam virtualmente, através
de uma composição de traços satíricos e metafóricos, formas
possíveis de Estado que possam conviver com a comunidade dos
homens. Este desenho imaginário assume a forma de um ideal
político, de uma sociedade onde todos estarão bem.
Muitas são as indagações implícitas
às utopias clássicas, dos séculos XVI e XVII: como será o
Estado que nasce da traumática superação do mundo feudal?
Que características terá, se incorporar o máximo da racionalidade
cientíbfica em processo de criação? Diante de um Estado alargado
ao limite, como viverá o indivíduo? Mantida a religião na
nova sociedade, qual será a sua feição? Absorvida e confundida
com o Estado, que então terá uma face sagrada? Será possível
ao indivíduo construído pelo Humanismo subsistir diante de
um Estado absoluto, sustentado pelo racionalismo burguês?
Estas e muitas outras questões,
postas pela realidade, são respondidas pelas utopias – e basta
isso para dizer que este gênero se alimenta da realidade mais
concreta, e não por devaneios sociais, como afirmam seus detratores.
O
peso da herança platônica e de outros autores, como Aristóteles,
Luciano de Samósata e Santo Agostinho, é enorme. Comumente
uma obra utópica traz em si, de forma criptografada, toda
a biblioteca de seu autor. Embora lamentem a perda histórica
da comunidade, as utopias iniciais costumam ser otimistas
com o Estado moderno, vendo neles um instrumento de superação
da miséria material e dos vícios societários, como a preguiça,
a exploração e a injustiça. Este é apenas um dos paradoxos
típicos da utopia. Há nisso uma junção imaginária entre a
justiça da comunidade e as conquistas científicas. A utopia
nasce também daquele otimismo sobre as possibilidades humanas
de escrever seu próprio destino, individual e coletivo, que
é a face mais marcante do Humanismo da Renascença.
JU – Qual é a
função social da utopia nos dias de hoje? O homem atual é
capaz de produzir utopias?
Berriel – Historicamente, e dentro de seu estatuto
literário, as utopias sempre puderam ajudar a compreensão
dos quadros culturais, sociais e políticos que as geraram.
Se a utopia tiver uma função social hoje, será a mesma de
sempre: criar uma imagem do mundo a partir das opções históricas
postas pela realidade. Acredito que atualmente – e há mais
de um século – a utopia “típica” não é mais escrita. Em seu
lugar existe sua irmã gêmea, a distopia, que é a obra que
mostra uma sociedade perfeita em sua malignidade. Desta série
podemos citar as obras de George Orwell, 1984 e Fazenda de
Animais, e a de Aldous Huxley, Admirável Mundo Novo. Toda
a consciência crítica do século XX dependeu, decisivamente,
destas distopias. Uma outra forma da distopia pode ser a ficção
científica, um galho da árvore utópica, e que se caracteriza
pela dilatação ao extremo dos efeitos que a tecnologia desprovida
de controle ético tem sobre a sociedade.
JU – Até que ponto
o individualismo atrapalha ou inibe a formação de utopias
coletivas na sociedade contemporânea?
Berriel – Curiosamente, a noção de indivíduo, que
nasce na Antiguidade grega, teve um grande desenvolvimento
no Renascimento e, inclusive, na obra dos pensadores que foram
centrais para a utopia, como Pico della Mirandola e Erasmo
de Rotterdam. Entretanto, o indivíduo que eles conceberam
não era anti-social, e viam a polis (isto é, o ambiente de
civilidade em que viviam) como substrato irrenunciável à sua
própria existência individual. Se o indivíduo da Renascença
considerava possível considerar sua vida como auto-construção
autônoma – o homem como autor de si mesmo – estava a um passo
de considerar a vida coletiva como passível de ser fruto de
uma deliberação racional e livre. É esta mentalidade que tornou
possível a utopia, isto é, a ideia de uma polis construída
a partir da livre razão de seus cidadãos. O individualismo,
que é contemporâneo, aparece como uma supressão da individualidade
da Renascença justamente por sua negação congênita do interesse
social.
JU – Uma utopia
é ou deve ser algo realizável?
Berriel – Sou da opinião de que as utopias, pelo
menos nos seus primeiros dois séculos, existem como obras
de ficção política, não sendo diretamente propostas de realização
efetiva. Possivelmente, nos entornos da Revolução Francesa,
elas poderão ter assumido este caráter de propositura, somado
à reflexão ético-política. Mas estou certo de que as utopias
mais arquetípicas não oferecem um roteiro estrito para ser
seguido por engenheiros sociais – que, aliás, surgem apenas
após a Revolução Industrial. As utopias são essencialmente
ficções nutridas pela filosofia política.
JU
– Autores brasileiros já produziram obras que poderiam ser
classificadas de utópicas? Há alguma produção atual neste
sentido?
Berriel – Se considerarmos a utopia em sentido mais
largo, menos rigoroso em sua definição, então a resposta é
sim. Há mesmo uma interessante biblioteca neste sentido, com
obras de Graça Aranha, Monteiro Lobato, Joaquim Felício dos
Santos, Menotti del Picchia e muitos outros. Alguns preferem
vê-los como autores de ficção científica, o que é todo um
outro problema. A ficção científica brasileira, entretanto,
é bastante vigorosa.
JU – Se a ficção
científica está ligada à utopia, quais são seus pontos em
comum?
Berriel – Há um substrato temático comum à utopia
e à ficção científica: ambas as manifestações tratam, com
o recurso dos mundos imaginários, das mais urgentes questões
da época que as produziu. Os dois elementos constituintes
do nome devem ser sublinhados: a Ciência e a Ficção. É possível
que a ficção científica tenha se constituído sobre o trauma
histórico trazido pelo progresso científico, cujo início pode
ser localizado no âmbito do Romantismo, contemporâneo da revolução
industrial e do consequente divórcio entre o poder avassalador
da nova técnica e uma ética insuficiente para estes tempos.
O paradigma do problema é, sempre, Frankenstein – o Moderno
Prometeu, de Mary Shelley (1818), obra infinitas vezes retomada:
afinal, poderá o homem substituir Deus como criador da vida
e de outros mundos? A ficção científica percebeu a dessacralização
promovida pela Revolução Industrial ao criar a máquina, esta
criatura que opera em um tempo dessemelhante ao do homem,
e ao devassar a natureza, anteriormente concebida como mistério.
A quebra da ordem cósmica
arcaica, de alto valor para o romântico, gera um poder sobrenatural,
desprovido, entretanto, de uma ética correspondente. A ética,
entendida como o controle humano sobre a vida, foi suplantada
pela eficácia econômica, que não se subordina aos ditames
e valores humanos. Esse poder técnico cria sem a hesitação
de um vestíbulo moral um mundo sem justificativas para suas
construções e personagens: o mundo dos simulacros, do homem
sintético, sem alma, a cidade das máquinas, o terror nuclear,
a realidade paralela, as criaturas de código incompreensível
para a razão humana, já em vias de ser descartada. O tempo,
como História, aparece desgovernado.
Em sua abundante série a ficção científica registra, como
os mitos e as tragédias de outro tempo, a irrupção do grotesco
no mundo, dos monstros que são o sintoma da quebra da ordem
do cosmo, da dissolução do homem como medida de todas as coisas.
Visto isso, é possível perceber conexões entre o procedimento
utópico e o da ficção científica. O que não impede, entretanto,
que uma e outra manifestação possa seguir seu destino de forma
independente.
JU – Há planos
para um IV Congresso de Estudos Utópicos da Revista Morus?
Quais são as expectativas?
Berriel – Estamos trabalhando, com os colegas da
Universidade de Florença, visando um congresso em fevereiro
de 2014. O tema central desta vez será a posição das utopias
dentro dos embates políticos e revolucionários na História.
O título provisório é: Utopias do Renascimento, Utopias das
Revoluções.
JU – Quais são
atualmente os convênios estabelecidos entre a Unicamp e universidades
estrangeiras para a linha de pesquisa sobre utopia?
Berriel
– Mantemos atualmente convênios formalmente constituídos com
a Universidade del Salento/Lecce (Itália), que possui o Centro
Interuniversitario di Studi Utopici, e com o Dipartimento
di Studi sullo Stato da Universidade de Florença. Mesmo sem
um vínculo formal, temos acordos vivos de parceria com o Centre
d’Études Supérieures de la Renaissance da Universidade François
Rabelais de Tours, França, com o qual acabamos de realizar,
agora em janeiro, o III Congresso Internacional de Estudos
Utópicos, dedicado aos temas do consenso e do livre-arbítrio
nas utopias, cujas comunicações encontram-se disponíveis em
vídeo e áudio no site do CESR e em breve serão publicadas
na Morus. Mantemos constante contato também com o Centro Interdipartimentale
di Ricerca sull’Utopia da Universidade de /Bologna (Itália).
Somos também membros da Utopian Studies Society. Temos uma
relação muito viva com outras revistas sobre utopia, como
a Moreana e a Bruniana&Campanelliana. A Revista Morus
reúne pesquisadores de mais de 50 universidades nacionais
e estrangeiras, com quem estabelece parcerias na forma de
colaborações individuais ou de projetos coletivos mais abrangentes,
como congressos organizados em parceria.
JU – Há planos
para se criar um programa de pós-graduação em utopia na Unicamp,
a exemplo do que já existe em Portugal?
Berriel – Por enquanto não. Isso talvez possa ser
pensado dentro de alguns anos, com o crescimento no Brasil
das leituras sobre utopias. Isso poderá ser viabilizado, entre
outras iniciativas, pela coleção Mundus Alter.
JU – Além dos
recém-lançados A cidade feliz e A terra austral conhecida,
quais outros livros da coleção Mundus Alter já estão no prelo?
Berriel –
Planejamos trazer para as estantes brasileiras novas edições
de textos já disponíveis, como A cidade do sol, de Campanella
(1602), e a Utopia, de Thomas Morus, assim como textos pouco
conhecidos, mas importantes dentro do gênero, como os títulos
recém-lançados. Há muitos títulos em perspectiva, em diversos
estágios de realização. Em breve deverão ser publicados uma
coletânea de utopias italianas do século XVI, por mim traduzidas,
além de A ilha dos hermafroditas (1605) publicada anonimamente
em Paris e traduzida por Ana Claudia Romano Ribeiro – que
também planeja traduzir do latim a Utopia do Morus e Epigone,
histoire du siècle futur, de Michel de Pure e a Viagem ao
sol (Histoire comique des états et empires du Soleil), do
Cyrano de Bergerac. Para este ano planejamos publicar ainda
as Cartas da malásia, de Paul Adam (1896), traduzida por Laura
Cielavin Machado e O homem na Lua (1638) de Francis Godwin,
traduzido por Bruna Caixeta.
Estão
em níveis diferentes de elaboração Alector ou le coq, de Barthélemy
Aneau, em tradução de Yvone Greis, A ilha dos Pinheiros de
Henry Neville, por Helvio Gomes Morais, que também vai traduzir
The machine stops, de E. M. Foster, e Oceana, de Harrington.
Ivone Gallo está preparando uma edição da obra de Fourier,
Le nouveau monde amoureux.
Razão e ciência
na berlinda
Helvio
Moraes apresentou a primeira versão da tradução da utopia
de Francesco Patrizi da Cherso, A cidade feliz, em 2005,
quando concluiu o mestrado em Teoria e História Literária
do IEL, sob a orientação do professor Carlos Berriel. “Levei,
portanto, cerca de três anos para concluir a tradução comentada
e o estudo que a acompanha. No entanto, venho revisando
periodicamente este pequeno tratado e concordo plenamente
com Ana Claudia Ribeiro quando afirma tratar-se de uma atividade
infinita. Quando voltar a ler minha tradução, tenho certeza
de que encontrarei outras alternativas, talvez mais interessantes
e adequadas do que aquelas por que optei”, afirma o doutor
em história literária pela Unicamp e professor da Universidade
do Estado de Mato Grosso (Unemat).
A Cidade Feliz é um tipo
de utopia pouco conhecida, já que nela apresenta-se outro
modelo utópico e não um relato de viagem, comum em inúmeras
obras utópicas. Francesco Patrizi apresenta uma imagem de
cidade, no qual a razão e a ciência são fundamentais para
que o homem alcance a felicidade. A tradução é acompanhada
de uma introdução que vai da página 13 à 57 e é essencial
para a compreensão do texto. Nela, Helvio apresenta o ambiente
intelectual de Veneza na época em que Francesco Patrizi
escreveu a obra, publicada em 1553. “Penso que a tradução
de A Cidade Feliz, por si só, não é capaz de fornecer ao
leitor brasileiro todos os elementos para uma compreensão
mais ampla do pensamento político de Patrizi, primeiramente,
por se tratar de um autor ainda pouco conhecido no Brasil
e cuja fortuna crítica tem se consolidado em anos relativamente
recentes. Em segundo lugar, acredito que as considerações
sobre os círculos intelectuais dos quais o jovem filósofo
participava, o ambiente socio-político veneziano e a relação
de seu texto com outros gêneros do discurso político do
Renascimento podem complementar e dar uma direção mais precisa
à leitura dessa utopia que, por tantos aspectos, se esquiva
a classificações muito rígidas de gênero”, explica.
Sobre a importância de se
disponibilizar esta obra em português, Helvio afirma que
“o nome de Francesco Patrizi, é hoje relacionado a pensadores
do porte de Bernardino Telésio, Galileu e Campanella” e
que ele acredita “ser relevante colocar à disposição dos
leitores de língua portuguesa o texto de um importante autor
da Itália Contra-Reformista”.
Do pastiche à sátira
dos devotos
“Traduzir
esta obra é produzir um objeto cultural passível de ser
discutido, tanto em sua forma [a tradução] quanto em seus
diversos estratos de significados. É tornar acessível ao
público de língua portuguesa um tipo de ficção essencialmente
política, chamada de utopia literária, e contribuir para
os estudos referentes à língua e à literatura do século
XVII”. É assim que Ana Cláudia Romano Ribeiro, tradutora
da obra A terra austral conhecida (1676), define seu trabalho
de verter para o português a utopia de Gabriel de Foigny,
originalmente escrita em francês. “Um francês, em vários
aspectos, diferente do francês atual, que mescla registros
diversos, passando do coloquial ao formal, do pastiche do
relato de viagem à sátira dos devotos, um francês repleto
de expressões circunscritas historicamente”, explica a doutora
em teoria literária pela Unicamp e professora de Literatura.
Ana Cláudia é pesquisadora
do Centro de Pesquisa sobre Utopia (U-Topos), do grupo Renascimento
e Utopia, do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL–Unicamp)
e coeditora da revista Morus — Utopia e Renascimento. Seu
interesse pelo tema da utopia surgiu em 2002, quando participou
de um curso ministrado pelo professor Berriel e dedicado
ao estudo do Renascimento, do Humanismo e de algumas obras
específicas, como O príncipe, de Maquiavel, e Utopia, de
Thomas Morus. “Interessei-me principalmente pela articulação
entre ficção, história, literatura e filosofia nessas obras
e temas, e fiquei particularmente intrigada com Utopia,
obra ao mesmo tempo enigmática e concreta, que trata de
questões absolutamente centrais à vida humana por meio de
uma ficção paradoxal, que mistura verossímil e inverossímil”,
diz a pesquisadora.
O trabalho de tradução de
A terra austral conhecida se iniciou em 2005, quando Ana
Cláudia ingressou no doutorado sob a orientação do professor
Berriel e a última versão ficou pronta no segundo semestre
de 2011. Ela conta que as revisões foram incontáveis e que
“se não tivesse publicado agora, creio que continuaria revisando
a tradução, cotejando o original com o português – pois
esta é uma atividade infinita.”
SERVIÇO
Obra: A cidade feliz
Autor: Francesco Patrizi da Cherso
Tradução, introdução e notas: Helvio Moraes
Edição: 1ª
Páginas: 136
Preço: R$ 32,00
Obra:
A terra austral conhecida
Autor: Gabriel de Foigny
Tradução, introdução e notas: Ana Cláudia
Romano Ribeiro
Edição: 1ª
Páginas: 248
Preço: R$ 45,00
Lançamento
Dia: 20 de março
Horário: 18 horas
Local: Empório do Nono, Barão Geraldo, Campinas
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