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Matemática verde
Modelo matemático simula a dispersão
de poluentes em corpos d’água
Imagine
a seguinte cena. Um corpo d’água acaba de ser contaminado
por um determinado poluente. Preocupadas com a dispersão do
produto, as autoridades convocam químicos, engenheiros e biólogos
para que definam uma estratégia para enfrentar o problema
e evitar um acidente ambiental de grandes proporções. Embora
esses profissionais tenham largo conhecimento para cumprir
a missão, o trabalho deles poderia ser facilitado com a colaboração
de outro especialista: o matemático. Este, por meio de modelagem
matemática, seria capaz de oferecer dados importantes para
a tomada de decisão, como a direção e a velocidade de deslocamento
da mancha de poluição. “Nosso objetivo é exatamente o de fazer
simulações que possam subsidiar a adoção de medidas mitigadoras
ou de contingenciamento em situações dessa ordem”, afirma
o matemático Manoel Fernando Biagioni Prestes, que acaba de
defender dissertação de mestrado sobre o assunto no Instituto
de Matemática, Estatística e Computação Científica (Imecc)
da Unicamp.
Prestes
atua num ramo da ciência conhecido como biomatemática, que
combina os conhecimentos proporcionados pela matemática e
a biologia. No trabalho que desenvolveu no Imecc, sob a orientação
do professor João Frederico da Costa Azevedo Meyer, ele concebeu
um sistema que simula a dispersão de poluentes em corpos d’água.
A pesquisa foi validada na Lagoa do Taquaral, localizada no
Parque Portugal, uma das principais áreas verdes de Campinas
(SP). O autor da dissertação explica que fundamentou o estudo
no método das diferenças finitas. Para se aproximar do cenário
real, ele considerou uma série de parâmetros, alguns deles
inéditos em relação ao ambiente analisado.
Assim,
Prestes alimentou o sistema com variáveis como a difusibilidade
do meio, velocidade do vento, topografia do entorno da lagoa
e as fontes poluidoras, que são as tubulações de água pluvial
que fazem despejo no local, trazendo todos os contaminantes
gerados pela urbanização ao redor. “A questão da topografia
é muito importante, principalmente porque não havia sido considerada
em estudos anteriores”, destaca o professor João Frederico
Meyer. Conforme o autor da dissertação, a dispersão dos poluentes
pode variar conforme o solo encontrado. No caso do ambiente
analisado, foram identificados argila, cascalho e areia. O
trabalho também levou em conta os vertedouros, por onde é
escoada parte da água da lagoa, que na prática funciona como
uma pequena represa.
Cenário
Com os dados em mãos, Prestes alimentou e fez rodar o sistema.
Ao final, ele obteve um cenário, projetado na forma de gráficos,
que informa, por exemplo, para onde a mancha de poluição se
dirige, com qual velocidade e em que ponto ela tenderá a se
concentrar. “Nos ensaios que fizemos em relação à Lagoa do
Taquaral, os resultados se mostraram coerentes com o que ocorre
em situações reais”, afirma o pesquisador. Ainda segundo ele,
nas simulações ficou clara a necessidade da intervenção do
Poder Público no sentido de promover o tratamento adequado
dos efluentes despejados por pelo menos três fontes poluidoras.
“Somente assim será possível reduzir o impacto ambiental causado
por esse tipo de desague”, adverte Prestes.
O
autor da dissertação reforça a importância do uso desse tipo
de técnica como instrumento capaz de gerar informações confiáveis
para a tomada de decisão. “A finalidade é tornar as eventuais
estratégias de prevenção ou remediação mais eficazes”, insiste.
Conforme o professor João Frederico Meyer, métodos assemelhados
têm sido empregados com o objetivo de subsidiar ações para
o controle da dispersão de poluentes em meio aquático. O tema
vem ganhando tanta importância que grupos de pesquisas instalados
em diferentes universidades brasileiras têm trabalhado em
torno dele. “O nosso grupo do Imecc mantém colaborações com
pesquisadores do Maranhão, Minas Gerais, Goiás e Rio de Janeiro,
entre outros”, elenca o docente. Ele adianta que o trabalho
feito por Prestes deverá dar margem a outro, a ser concretizado
com a colaboração da professora Eliana Catapani Poletti, da
Faculdade de Tecnologia (FT) da Unicamp, instalada na cidade
de Limeira (SP).
O objeto desse novo estudo
será a represa de Salto Grande, localizada no município de
Americana (SP). “A professora Eliane já estudou a represa
durante o seu doutorado. Entretanto, em vez de utilizar o
método de diferenças finitas, ela empregou o de elementos
finitos. Agora, vamos ver se há compatibilidade entre os dados
proporcionados por um e outro. Não será uma tarefa fácil.
Nós estamos partindo de um ambiente que foi esquadrinhado
em dois mil pontos de análise para um que terá pelo menos
20 mil pontos. Nesse tipo de pesquisa, é exatamente assim
que fazemos. Partimos de um objeto mais simples para um mais
complexo”, detalha o professor João Frederico Meyer.
Futuramente, acrescenta o
autor da dissertação, nada impedirá que o método desenvolvido
por ele seja empregado em outros corpos d’água, como um rio
com corredeiras. “Para isso, precisaremos apenas adequar o
sistema e alimentá-lo com os parâmetros específicos”, diz
Prestes. O professor João Frederico Meyer conta que as pesquisas
em torno de modelos matemáticos para esse tipo de finalidade
tiveram início há muitos anos no Imecc, a partir da sugestão
de um aluno seu de iniciação científica interessado no assunto.
“Desde então, temos produzido diversos estudos na área. Atualmente,
tenho desde estudantes de iniciação científica até doutorandos
trabalhando com modelagem matemática relacionada à questão
ambiental”.
Esta, no entanto, não é a
única aplicação dos conhecimentos gerados pela biomatemática.
Atualmente, existem grupos de pesquisas no Brasil e exterior
que se dedicam a estudos relativos à saúde humana. Os cientistas
usam a modelagem matemática para, por exemplo, simular a propagação
de doenças infecciosas. Um caso bastante conhecido, e no qual
um grupo da Unicamp esteve diretamente envolvido, é o que
analisou o comportamento e o ciclo reprodutivo do Aedes aegypti,
o mosquito transmissor da dengue. O objetivo do trabalho foi
fornecer dados que pudessem contribuir paras medidas de controle
efetivo do inseto.
Publicações
Dissertação: “Dispersão de material impactante em
meio aquático: modelo matemático, aproximação numérica e simulação
computacional - Lagoa do Taquaral, Campinas, SP”
Autor: Manoel Fernando Biagioni Prestes
Orientador: João Frederico da Costa Azevedo
Meyer
Unidade: Instituto de Matemática, Estatística
e Computação Científica (Imecc)
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