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O que ‘dizem’ OS PSITACÍDEOS
Tese investiga a comunicação sonora
de aves
como papagaios, periquitos e araras do Cerrado
Entre
os anos de 1825 e 1829, o francês Hercules Florence, um dos
pioneiros da fotografia no mundo, participou da expedição
do naturalista alemão Georg Heinrich von Langsdorff, que percorreu
o interior do Brasil. Desenhista refinado, a missão de Florence
era fazer o registro iconográfico da aventura científica.
Além de reproduzir elementos da natureza e os índios, ele
também registrou os cantos dos pássaros por meio de transcrições
musicais. Deu o pontapé inicial, por assim dizer, para os
estudos de bioacústica tanto por estas plagas quanto no mundo.
Atualmente, os cientistas ocupados em investigar a comunicação
sonora animal dispõem de recursos mais refinados, como gravadores
digitais e softwares. “Trata-se de uma área de investigação
relativamente nova. Avançamos bem em termos de conhecimento,
mas ainda é preciso progredir muito mais”, afirma o biólogo
Carlos Barros de Araújo, que pesquisa a comunicação sonora
dos psitacídeos (araras, papagaios, periquitos, calopsitas
etc), especificamente os que vivem no Cerrado brasileiro.
Recentemente, Araújo concluiu
tese de doutorado sobre o tema, apresentada ao Instituto de
Biologia (IB) da Unicamp. Ele foi orientado pelos professores
Jacques Vielliard, falecido em agosto de 2010, e Luiz Octavio
Marcondes Machado, ambos da Unicamp, além do professor Gabriel
Costa, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).
O trabalho, que aprofundou a abordagem feita por ele no mestrado,
analisou o padrão da comunicação e a relação deste com a alimentação
de 15 espécies de psitacídeos. O biólogo identificou, via
modelo matemático e por meio de medidas realizadas do solo,
que o “diálogo” entre algumas espécies pode ocorrer a distâncias
de até 1,5 quilômetro. “Normalmente, os animais dormem em
bandos únicos. De dia, eles se espalham, provavelmente para
tornar a busca por alimentação mais eficiente. Assim, a comunicação
a grande distância serve basicamente para agregá-los durante
o dia e principalmente ao final da tarde, uma vez que as espécies
pernoitam em grandes dormitórios comuns”, detalha.
Um aspecto importante também
detectado por Araújo é a interferência da perturbação ambiental
(ruídos urbanos) na comunicação sonora dessas aves. Por conta
do problema, adverte o especialista, essa comunicação vem
sendo brutalmente reduzida. “Nossos modelos preveem uma redução
de 1.500% na distância de comunicação de algumas espécies!”.
Quando não, os animais são forçados a mudar seu canto. “Muitas
espécies passam a cantar em frequências mais agudas e com
uma maior intensidade quando submetidas a ruídos de grande
intensidade”, relata. No Brasil, conforme o pesquisador, não
há leis específicas que protejam os psitacídeos ou outras
espécies desse tipo de interferência, ao contrário do que
ocorre na Europa. Lá, é comum a colocação e barreiras acústicas
em rodovias ou avenidas que cortam ou passam ao lado de áreas
habitadas ou onde há fauna representativa. Desse modo, o som
dos veículos é refletido e retorna ao ponto da emissão, sem
afetar o bioma. O pesquisador indica a necessidade de criação
desse tipo de legislação por aqui, dado o potencial impacto
que o ruído pode ter na biologia das espécies.
Em relação ao comportamento
alimentar das espécies investigadas, Araújo diz ter encontrado
um gradiente. Assim, há desde aves especialistas que comem
somente o fruto do buriti (um tipo de palmeira) tal como o
Maracanã-do-buriti, até aquelas generalistas que ingerem uma
ampla gama de itens alimentares, tal como a maritaca ou periquitos,
que conseguem se adaptar com certa facilidade aos ambientes
antrópicos. Ao pesquisar o padrão de alimentação dos psitacídeos,
Araújo aproveitou os dados para tentar melhorar os modelos
de previsão da distribuição geográfica das espécies. Ao cruzar
informações alimentares com as características físicas dos
ambientes, ele percebeu que o modelo se tornava mais refinado.
“Entretanto, há alguns aspectos que ainda precisam ser aperfeiçoados.
Estou neste momento discutindo essa questão com meu coorientador,
Gabriel Costa”, observa o autor da tese.
E qual a importância de se
investigar a comunicação sonora e o comportamento alimentar
dos psitacídeos? De acordo com Araújo, quanto mais a ciência
sabe sobre eles, mais condições tem de estudar e propor ações
que possam contribuir para preservá-los. O biólogo lembra
que araras e papagaios estão entre as espécies mais ameaçadas
de extinção no mundo. Ademais, no Brasil, estão entre os alvos
preferenciais dos contrabandistas de animais, como a mídia
mostra de forma recorrente. O especialista reconhece, no entanto,
que os conhecimentos gerados pela bioacústica ainda têm sido
pouco utilizados, sobretudo no país, para a formulação de
políticas públicas ou mesmo para a definição de manejos que
objetivem preservar essas ou outras espécies.
“Isso pode estar relacionado,
de certa forma, à dificuldade em se estudar o grupo. Até 2005,
nós tínhamos muito pouca informação sobre os psitacídeos.
Atualmente, temos alguns grupos dedicados ao estudo das espécies,
como o da Unicamp, liderado pelo agora aposentado professor
Luiz Octavio Marcondes Machado. Há também pesquisadores do
Mato Grosso e do Pará que estão realizando trabalhos importantes
na área. Esse esforço tem sido recompensado, pois hoje temos
mais informações sobre comunicação, alimentação e reprodução
das aves. Descobrimos muitas coisas, mas temos muito mais
a descobrir”, analisa o autor da tese. No que toca especificamente
a comunicação sonora dos psitacídeos, Araújo destaca que já
foi possível identificar que cada nota emitida pelas espécies
tem um contexto específico, como sinal de agregação ou sinalização
de sentinela. “No segundo caso, um indivíduo normalmente fica
na copa da árvore observando a presença de predadores e emitindo
um som de intensidade baixa, possivelmente para avisar aos
demais membros do bando da presença de um sentinela. Quando
um predador de fato se aproxima, é o sentinela que emite uma
nota de alarme, de alta intensidade, para avisar aos demais”.
Os
grandes desafios a serem superados dentro desse campo de investigação,
no entender do biólogo, são a escassez de tempo e a falta
infraestrutura, principalmente a humana. Araújo assinala que
o Brasil já perdeu algumas espécies de aves por causa da degradação
da natureza e de outras ações do homem. A ararinha azul de
Spix, por exemplo, que ocorria na caatinga nordestina, já
não pode mais ser encontrada na natureza. Atualmente, existem
pouquíssimos espécimes vivendo em cativeiro. Em relação ao
Cerrado, existem previsões de que em 2030 a vegetação seria
restrita a reservas, que hoje representam somente 2% da distribuição
original. “Estamos correndo contra o tempo. O Brasil conta
com mais de 1.800 espécies de aves. Essa diversidade demandaria
o trabalho de um grande número de ornitólogos. A Inglaterra,
que soma apenas 400 espécies, tem um número de profissionais
muito maior do que o nosso”, compara o biólogo, que contou
com bolsas de estudos concedidas pela Coordenação de Aperfeiçoamento
de Pessoal de Nível Superior (Capes), órgão vinculado ao Ministério
da Educação, e Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico
e Tecnológico (CNPq), agência ligada ao Ministério da Ciência
e Tecnologia.
Pioneirismo
Araújo é discípulo do professor Jacques Vielliard, pioneiro
da bioacústica no Brasil. O docente foi convidado para trabalhar
na Unicamp por Zeferino Vaz, fundador da Universidade, na
década 70, quando começava a ganhar força na França o debate
em torno do meio ambiente. Graduado em Ciências pela Universidade
de Paris (1967), com mestrado em Ecologia pela Ecole Normale
Supérieure (Paris, 1968) e doutorado em Ecologia pela mesma
instituição (Paris, 1971), Vielliard criou o Laboratório
de Bioacústica na Unicamp e deu início a pesquisas importantes
na área. “Atualmente, quem atua com bioacústica no Brasil,
com poucas exceções, ou trabalhou com o Jacques ou com algum
aluno dele”, afirma o autor da tese.
Para o biólogo, Vielliard
era uma pessoa fantástica e tinha uma mente brilhante. “No
início a gente se assustava um pouco com a personalidade
dele. Era uma pessoa muito direta e fazia críticas muito
objetivas, das quais não tínhamos como fugir. Depois que
passava essa primeira impressão, porém, tudo ficava bem.
O professor Jacques tinha uma cabeça que estava sempre à
frente da de qualquer outro, e dava orientações precisas.
Mesmo que o trabalho fosse de um orientando, ele sempre
estava adiantado em relação ao pensamento desse aluno. A
morte dele representou uma perda muito grande para a ornitologia
e a bioacústica do país. Sem ele, penso que regredimos muito.
Não vai ser fácil recuperar isso, mas cabe a nós tentarmos”,
entende Araújo. Com isso em mente, pesquisadores ligados
ao professor Vielliard conseguiram trazer para o Brasil
a próxima edição do Congresso Internacional de Bioacústica
(IBAC), a ser realizado em Ilhabela, em 2013.
Jacques Vielliard morreu
no dia 9 de agosto de 2010, em Belém, no Pará, onde foi
sepultado. Graças a um convênio firmado entre a Unicamp
e a Universidade Federal do Pará (UFPA), apoiado pela iniciativa
privada, o docente iniciou, em 2008, a digitalização do
seu acervo composto por cerca de 30 mil gravações contendo
sons da natureza, de aves, sapos, insetos e mamíferos. A
coleção é considerada a quinta maior do gênero no mundo,
e a maior ao sul do Equador. “Quando o trabalho estiver
concluído, os conteúdos das gravações poderão ser acessados
pela internet de qualquer parte do planeta”, disse o cientista
francês em 2008, em tom entusiasmado, ao Jornal da Unicamp.
O site da coleção já se encontra parcialmente no ar, graças
ao esforço dos professores Wesley Silva e Felipe Toledo
(IB), em conjunto com o Laboratório de Sistemas de Informação
(IC), além de colaboradores de longa data como Milena Corbo,
ex-aluna do professor Jacques, a quem ele se referia como
seu braço direito. “Uma pena Jacques não ter vivido para
ver seu sonho tornando-se realidade!”, lamenta Araújo.
Publicação
Tese: “Psitacídeos do Cerrado:
Sua alimentação, comunicação sonora e aspectos bióticos e
abióticos de sua distribuição potencial”
Autor: Carlos Barros Araújo
Orientador: Luiz Octavio Marcondes Machado
Coorientadores: Jacques Vielliard e Gabriel Costa
Unidade: Instituto de Biologia (IB)
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