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Uma ferramenta para crianças
com alterações neuromotoras
Fonoaudióloga desenvolve projeto
piloto
na Apae no âmbito de mestrado profissional
O Centro
de Estudos e Pesquisas em Reabilitação Prof. Dr. Gabriel O.
S. Porto (Cepre) da Unicamp acaba de atestar a eficácia do
protocolo Pedi (Pediatric Evaluation of Disability Inventory)
para a área de Fonoaudiologia (seu uso é majoritariamente
nas áreas de Fisioterapia e Terapia Ocupacional). O instrumento
servirá de apoio ao acompanhamento terapêutico de crianças
entre seis meses e 7,6 anos com alterações neuromotoras, entre
as quais paralisia cerebral e atraso do desenvolvimento psicomotor.
O projeto piloto foi desenvolvido na Apae-Campinas – Associação
de Pais e Amigos dos Excepcionais junto ao Setor de Estimulação
Precoce – pela fonoaudióloga Daniele Theodoro Ostroschi, dentro
do Programa de Mestrado Profissional Saúde, Interdisciplinaridade
e Reabilitação do Cepre da Faculdade de Ciências Médicas (FCM).
Além
do protocolo, a pesquisadora chegou à caracterização do perfil
dos cuidadores do estudo, que foram, neste caso, predominantemente
mães (88%), coincidindo com dados da literatura que mostram
a mulher como principal cuidadora. “Outros cuidadores foram
os avós (6%) e os pais (3%)”, conta. A pesquisa também indicou
que tanto os pais como os profissionais têm uma visão convergente
acerca do desenvolvimento dessas crianças.
A fonoaudióloga
observou aspectos como a interação social e a comunicação
das crianças sob a ótica de familiares (ou cuidadores) e do
fonoaudiólogo, por serem as pessoas que mais conhecem a criança.
Foi realizado um piloto do estudo, tocado por Daniele com
o apoio de uma fisioterapeuta e de uma terapeuta ocupacional
que atuam na Apae-Campinas. Segundo ela, o Pedi foi traduzido
e validado pela professora de terapia ocupacional da Universidade
Federal de Minas Gerais (UFMG) Marisa Cota Mancini.
Daniele
avaliou, por meio de um questionário com 65 questões, familiares
e cuidadores de 38 crianças de 12 a 36 meses com alteração
neuromotora e fatores de risco para o desenvolvimento atendidas
no Setor de Estimulação Precoce da Apae, onde é funcionária
há cerca de três anos. A pesquisa ocorreu no período de 2009
a 2011.
A mestranda
comenta que o Pedi, criado nos Estados Unidos, é um manual
idealizado para avaliar o desenvolvimento infantil em seu
cotidiano e que pode ser aplicado de várias formas. Ao abordar
a interação social, o instrumento propõe questões como se
essa criança se relaciona com outras pessoas – com os membros
da família e com os amigos da mesma idade –, se ela brinca
com outras crianças, se a brincadeira permanece, se brinca
com adultos, se os imita, etc. Na questão de comunicação,
por exemplo, investiga se ela entende e executa ordens, se
pede ajuda, se é capaz de compreender comando de duas etapas
(pegar um objeto e levar na mesa; pegar um copo e levar em
cima da pia) e se executa os conceitos de cima, baixo, dentro,
fora.
“Essa
ferramenta foi feita para aplicar em crianças com dificuldades
em algumas habilidades, porém não se trata de um fato alarmante”,
tranquiliza Daniele, já que pais e profissionais trabalham
em parceria. O manual exibe inclusive exemplos a serem apresentados
aos entrevistados para facilitar a compreensão e evitar diferentes
ideias acerca das mesmas perguntas. Esses exemplos foram os
mesmos no estudo, para não se notarem discrepâncias.
Quando
as respostas do responsável pela criança e do profissional
foram discordantes, uma possível explicação foi que, às vezes,
a criança não tem o mesmo comportamento no contexto de terapia
e em casa. De acordo com Daniele, é por isso que nas respostas
às questões do manual a família pode dar como habilidade aquilo
que o profissional desconhece, e vice-versa. “A gente vê o
quanto é valiosa esta colaboração, porque a criança fica na
instituição apenas uma hora duas vezes por semana.”
Pontos salientes
Com relação à distribuição do diagnóstico, em geral as crianças
apresentavam paralisia cerebral por várias causas, dentre
elas prematuridade extrema e hipóxia neonatal. Também verificou-se
que, além das mães terem sido os responsáveis que mais acompanhavam
os filhos nas consultas, elas tinham ensino médio completo
e idade entre 19 e 45 anos, fora da faixa de risco, que é
abaixo de 18 anos ou acima de 45, esclarece a fonoaudióloga.
A mestranda averiguou que
os vários critérios de risco (gestantes com idade mais elevada
ou questão de risco social, como grau educacional dos familiares
e número de filhos) não foram identificados nas mães das crianças
estudadas. Por outro lado, a amostra apontou que as crianças
realmente tinham alguns atrasos na interação social e na comunicação,
embora isso já fosse esperado, pelo fato de serem especiais.
“Elas marcaram valores de referência abaixo dos obtidos no
protocolo, concebido para crianças com um desenvolvimento
normal.”
Para
Daniele, foi prazeroso apurar que os familiares acreditam
no trabalho do fonoaudiólogo, procuram seguir as suas orientações
e o quanto trazem elementos novos para as intervenções. “Mudamos
o olhar, vendo que não é só o profissional que sabe o que
está fazendo. Precisamos de participação.”
A orientadora da dissertação,
a professora da FCM Regina Yu Shon Chun, ao abordar o valor
da pesquisa de Daniele, lembra que o Programa de Mestrado
Profissional atingiu um de seus propósitos, que foi o de possibilitar
ao profissional que está em serviço, como é o caso de sua
orientanda, refletir sobre a sua própria prática.
Como a Apae é referência em
Campinas e região no atendimento às crianças de risco, expõe
ela, este setor tem grande demanda e por isso precisa de instrumentos
para auxiliarem nesse trabalho. “A fonoaudiologia apresenta
carência em protocolos padronizados para avaliação. Logo,
esta iniciativa é pioneira. Preenche uma lacuna como avaliação
complementar e traz a visão do sujeito que, no caso são os
pais, articulada à visão do profissional”, frisa Regina Yu.
“Se pensarmos no valor da atuação junto a essas crianças que,
com o avanço da ciência, cada vez permite maior sobrevida,
então essa dissertação tem apelo social e científico.”
A extensão dessa abordagem,
conta Daniele, já era do interesse da coordenação do Setor
de Estimulação Precoce da Apae. O intuito era aplicar esse
protocolo na rotina do atendimento e norteá-lo às necessidades
da criança para chegar às próximas etapas de desenvolvimento.
A propósito, os itens do manual sugerem etapas a serem vencidas
até que haja a alta. É o caso da criança nomear uma palavra
para depois nomear duas até montar uma frase com cinco ou
mais elementos. Espera-se que, no processo terapêutico, a
criança conquiste novos avanços.
A escala estudada vai de zero,
se a criança não tem aquela habilidade, a 1, quando tem. Em
cada questão, esse escore é somado, chegando-se a um total
na função investigada. “Um percentual esperado, que varia
consoante à pergunta e à faixa etária, é comparado às respostas
dos pais e do profissional avaliador. Sabe-se que existe um
atraso ao cotejá-lo ainda com o manual”, esclarece Daniele.
Esse protocolo proporciona
o cruzamento de informações do profissional e dos cuidadores.
Como ele fica arquivado, dá para acompanhar os avanços da
criança quantitativamente e possibilitar o olhar dos diferentes
profissionais para compreender se estão falando a mesma linguagem.
“Se a fisioterapia vê apenas se a criança está andando; a
TO, as atividades manuais; e a fonoaudiologia, como está falando,
vamos ter uma criança fragmentada. A ideia é olhá-la como
um todo: o que ela pode oferecer à sociedade e à sua própria
qualidade de vida”, salienta a mestranda.
Fatores de risco
A Apae-Campinas atende crianças com alterações neuromotoras
como paralisia cerebral, síndrome de Down, síndrome de Arnold
Chiari e síndrome de Cri-Du-Chat (síndrome do miado do gato),
entre outras. Atualmente, a instituição assiste mais de mil
crianças, que passam ali para atendimento de fisioterapia,
fonoaudiologia e terapia ocupacional, psicologia, pedagogia
e outras áreas. O Setor de Estimulação Precoce está sediado
dentro do Programa Ambulatório da instituição. Outros pilares
são a escola, a área de diversidade e o programa de colocação
profissional.
Além da Apae, outro polo de
atendimento a crianças com fatores de riscos para desenvolvimento
localiza-se no Ambulatório CRDI-Fênix do Hospital Municipal
Dr. Mário Gatti, em Campinas, que lida com bebês de risco
prematuros de baixo peso, múltiplas síndromes e quadro de
desnutrição da mãe e da criança, foco de estudo de outra dissertação
defendida no Mestrado Profissional por Denise Sayuri Maruo
sobre a análise das práticas de humanização do SUS.
Da Maternidade Campinas, os
recém-nascidos de risco são encaminhados ao Ambulatório Fênix
e de lá são conduzidos à Apae-Campinas ou ao Centro de Reabilitação
Souzas. “Temos hoje 108 pacientes no Setor de Estimulação
Precoce. Esse número deve aumentar”, dimensiona Daniele, fato
que reitera a propriedade de estudos como este.
Publicação
Tese: “Interação social e
comunicação de crianças com alteração neuromotora na ótica
de familiares/cuidadores e do fonoaudiólogo”
Autora: Daniele Theodoro Ostroschi
Orientadora: Regina Yu Shon Chun
Unidade: Faculdade de Ciências Médicas (FCM)
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