| |
IQ testa filmes finos para células solares de 3G
Resultados foram tema de capa da
revista
Photochemical & Photobiology Sciences
Artigo
dedicado à aplicação da técnica Layer-by-Layer (camada por
camada) para fabricação de células solares fotoeletroquímicas
orgânicas, assinado pelo doutorando do Instituto de Química
(IQ) da Unicamp Luiz Carlos Pimentel Almeida, foi publicado
na capa da revista Photochemical & Photobiology Sciences,
da Royal Society of Chemistry, em novembro de 2011. De acordo
com o autor, os resultados parciais de sua pesquisa de doutorado
indicam que os filmes finos de multicamadas são candidatos
promissores como camadas ativas de células fotovoltaicas orgânicas,
importantes na conversão de energia solar em eletricidade.
Uma das vantagens dos filmes, testados no Laboratório de Nanotecnologia
e Energia Solar (LNES) do IQ, é a substituição das células
convencionais do mercado, produzidas a partir de silício,
por material orgânico. De acordo com a orientadora da tese
de Almeida, Ana Flávia Nogueira, a técnica camada por camada
já é utilizada na indústria, mas é inédita na experiência
de conversão de energia. Os estudos ainda estão em fase laboratorial.
De
acordo com Ana Flávia, as células solares orgânicas são chamadas
de células solares de terceira geração ou 3G, por utilizarem
uma tecnologia recente, cujo início data da década de 1990.
O grande interesse está no fato de as células solares orgânicas
poderem ser produzidas por métodos mais baratos, como o desenvolvido
até agora por Almeida em comparação com as convencionais (no
caso das de silício). “O método de preparação é mais simples,
e isso facilita a produção e diminui muito o custo”, reforça
Ana Flávia. Ela explica que os dispositivos fotovoltaicos
baseados em silício requerem temperaturas muito altas, processos
de alto vácuo e isso encarece o uso da energia solar. Por
isso a energia solar ainda não é barata no mundo todo, segundo
a professora.
Para a professora do IQ e
colaboradora da pesquisa Teresa Atvars, além de o trabalho
suprir o uso da energia solar como mecanismo para produzir
energia elétrica, em discussão e aperfeiçoamento no mundo
inteiro, ele possibilita a utilização de água como solvente.
Ela explica que, na produção de dispositivos orgânicos para
energia fotovoltaica, em geral, são usados solventes orgânicos.
“Eles não dissolvem na água, então não conseguimos fazer a
montagem do dispositivo. O uso da água é importante, pois
tem baixíssima toxicidade e é ambientalmente correto do ponto
de vista do impacto ambiental”, informa Teresa. Ela acrescenta
que a grande novidade do trabalho é a combinação de fatores
de tecnologia de produção ainda em escala de laboratório,
que é ter sistema organizado, eficiente e que trabalhe com
tecnologia limpa. “A Ana Flávia encontrou um processo, e muitos
outros pesquisadores importantes buscam combinar processos
que tenham baixo impacto ambiental. Essa busca envolve grandes
laboratórios e empresas do mundo”, reforça a professora.
Outra
novidade nessa tecnologia de terceira geração é a possibilidade
de produzir uma célula solar flexível, de acordo com Teresa,
pois a de silício não é dobrável. Mas o tipo de célula que
está sendo montado por Ana Flávia e seus orientandos pode
ser até mesmo enrolado se for montado em substrato de plástico.
Segundo Teresa, recentemente um protótipo para carregador
de celular foi desenvolvido a partir de filme plástico com
possibilidade de ser enrolado, com menos peso que o de um
carregador normal. “A facilidade é que ao abrir na mesa, é
necessário somente colocar o celular sobre a ‘fita de bateria’,
debaixo de uma lâmpada ou da luz do sol. Além da facilidade,
a técnica elimina a necessidade das baterias convencionais,
úteis, porém com descarte mais difícil”, acrescenta Teresa.
A experiência ainda não atingiu a escala comercial, assim
como a pesquisa de Almeida, mas já foi testada em escala de
prova de conceito, segundo a professora.
Por isso são chamadas de terceira
geração, conforme Teresa, pois apesar de o silício ser muito
importante no momento, a ciência caminha sempre para a frente
e atualmente com os olhos voltados para a proteção ambiental.
“As células de terceira geração estão na fase de desenvolvimento
de ciência, acoplado ao desenvolvimento tecnológico, para
mais para frente chegar a ser produto. Mas por enquanto os
resultados são obtidos em escala laboratorial”, explica. Uma
próxima etapa do projeto será conduzida pelo aluno de iniciação
científica Fábio Fabris, em que ele estudará a aplicação de
moléculas encontradas na fotossíntese, para crescer filmes
finos.
Fotossíntese inspirou
pesquisa
Almeida diz ter se inspirado
no mais eficiente sistema de conversão da natureza, a fotossíntese.
Ele explica que na fotossíntese, cada peça-chave é colocada
numa determinada posição específica, numa organização espacial,
e a técnica camada por camada também permite este tipo de
organização. “Se pensarmos a partir da fotossíntese, conseguimos
ter maior controle sobre a camada ativa dos dispositivos
fotovoltaicos”, acrescenta Almeida. No método desenvolvido
no IQ, ele acomodou uma camada de polímero, outra de nanotubo
de carbono, assim por diante, obedecendo à ordem de uma
carga negativa, outra positiva, não de forma aleatória,
mas racional.
“Juntas, essas camadas são
carregadas, então o Luiz deposita polímero catiônico positivo,
nanotubos de carbono negativo, e vai repetindo essas deposições
até se atingir um número de camadas desejável, sendo o crescimento
desses filmes ditado por interações eletrostáticas”, explica
Ana. Ela acrescenta que a técnica é muito minuciosa, pois
além da intercalação de cargas, existe o momento de lavagem
do substrato e a posição correta das camadas, até chegar
ao dispositivo ideal.
“Minha proposta, logo de
início, era sequenciar camadas desses materiais e, ao chegar
ao laboratório, começamos a traçar o trabalho que teria
como resultado final a montagem de dispositivo orgânico
fotovoltaico”, explica Almeida. Após estudar o crescimento
e a morfologia dos filmes, a professora Ana Flavia sugeriu
a realização de ensaios fotoeletroquímicos, etapa que antecede
a aplicação em células solares. Ela explica que a partir
de estudos fotoeletroquímicos é possível estudar a direção
da corrente elétrica nos dispositivos em desenvolvimento,
uma medida chamada de cronoamperometria. Essa medida, segundo
a orientadora, é uma das fundamentais no trabalho desenvolvido
por Almeida.
Fomento
Com recursos de instituições de fomento, como a Fundação
de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), o
Conselho Nacional de Pesquisa e Tecnologia (CNPq), e também
do Instituto Nacional de Eletrônica Orgânica, ao qual Teresa
e Ana Flavia pertencem, a parceria dos laboratórios coordenados
pelas professoras tem apresentado bons resultados, pois
combina experiências e metodologias complementares. Para
2012, a expectativa é a liberação de recursos de aproximadamente
R$ 1 milhão a ser empregados no funcionamento de laboratórios
que poderão vir a ser referência em montagem e caracterização
de células fotovoltaicas. No futuro, as professoras esperam
que o Instituto de Química da Unicamp, por meio do LNES,
se torne um centro importante com uma das melhores infraestruturas
para a fabricação de dispositivos fotovoltaicos 3G no Brasil.
“O LNES desenvolve toda a fase de estudo para avaliação
das potencialidades dos materiais até a produção do dispositivo
na escala de laboratório (não de protótipo). Se dermos um
passo a mais no futuro, chegaremos à prototipagem. Mas,
para isso, teremos que ter auxílio financeiro de outras
partes, como empresas, por exemplo”, acrescenta Teresa.
Publicação
L. C. P. Almeida, V. Zucolotto, R. A. Domingues, T. D.
Z. Atvars and A. F. Nogueira. Photoelectrochemical, photophysical
and morphological studies of electrostatic layer-by-layer
thin films based on poly(p-phenylenevinylene) and single-walled
carbon nanotubes. Photochemichal and Photobiological Science.
2011, 10, 1766-1772
|
|