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PROJETO CLIMA
Sob ameaça
Pesquisas coordenadas
por docentes da Unicamp
priorizam dimensão humana ao investigar mudanças
ambientais e climáticas no litoral norte paulista

MARIA
TERESA MANFREDO
Especial para o JU
A beleza natural e
a diversidade biológica do litoral norte paulista sobreviveram
por séculos à ocupação humana. Porém, de algumas décadas
para cá, alguns fatores, entre os quais o desenvolvimento
de grandes empreendimentos e o acesso franqueado por rodovias,
transformaram a região, que é margeada pela Mata Atlântica.
Sua riqueza natural está ameaçada pelo crescimento urbano
e populacional e pela possibilidade de exploração de petróleo.
As mudanças climáticas, que já vêm ocorrendo em todo o mundo,
amplificam esse problema.
Composto pelos municípios
de Ubatuba, Caraguatatuba, São Sebastião e Ilhabela, o litoral
norte tem aproximadamente 2 mil km2 e uma população de 281.778
habitantes, de acordo com o censo demográfico de 2010 do
IBGE. A população da região, classificada como
de alta vulnerabilidade social e ambiental, necessita urgentemente
repensar a maneira de lidar com seu crescimento urbano,
desenvolvimento econômico e preservação do patrimônio natural
para as futuras gerações. É o que constata o Projeto Clima
conduzido na Unicamp desde 2009 e que vem gerando importantes
frutos.
Também
conhecido como GenteClima, o projeto temático, financiado
pela Fapesp e denominado “Crescimento urbano, vulnerabilidade
e adaptação: dimensões sociais e ecológicas das mudanças
climáticas no litoral norte de São Paulo”, tem por
objetivo compreender como as dinâmicas demográficas e sociais
interagem com as dinâmicas ecológicas.
O projeto é liderado
por pesquisadores do Núcleo de Estudos e Pesquisas Ambientais
(Nepam) e do Núcleo de Estudos de População (Nepo), ambos
da Unicamp, e conta com a participação de cientistas de
instituições nacionais e internacionais. Com mais de 50
docentes, doutores, doutorandos, mestrandos e graduandos
envolvidos, o projeto teve início em junho de 2009, tem
duração prevista de quatro anos e é coordenado pela pesquisadora
Lúcia da Costa Ferreira, do Nepam.
Dividido em quatro
componentes, o projeto contempla as seguintes áreas de estudos
do Nepam e Nepo: “Crescimento e morfologia das cidades e
vulnerabilidade de suas populações, infraestrutura e lugares”;
“Mudanças ambientais globais e políticas públicas em nível
local: riscos e alternativas”; “Conflitos entre a expansão
urbana e a cobertura florestal e suas consequências das
mudanças ambientais globais para o litoral de São Paulo”;
e “Expansão Urbana e mudanças ambientais no litoral norte
de São Paulo: impactos na biodiversidade”.
Segundo Lúcia, o
Clima nasceu da interação entre Nepo e Nepam, sempre promovida
pelo professor e demógrafo Daniel Hogan, falecido em abril
de 2010. “Com a criação do curso de doutorado em Ambiente
e Sociedade, nos empenhamos em pensar um projeto agregador,
que abarcasse professores e alunos do programa de pós-graduação”,
explica Lúcia. Além da pesquisadora do Nepam, o projeto
conta com coordenação de outros pesquisadores nos subprojetos.
São eles: Leila da Costa Ferreira, também do Nepam, Carlos
Alfredo Joly, do Instituto de Biologia (IB), e Roberto Luiz
do Carmo, do Nepo.
Conforme afirma Carmo,
esse estudo é parte importante da agenda de pesquisa global
– não apenas para a comunidade científica brasileira – pois
traz em seu escopo pesquisas empíricas que relacionam vulnerabilidade
às mudanças climáticas. “A abordagem interdisciplinar proposta
para esta análise socioecológica é necessária para tratar
dessa complexa questão”, argumenta.
Priorizando
essa abordagem, um dos principais objetivos do projeto temático
é diagnosticar, descrever e mapear as dinâmicas sociais,
políticas, demográficas e ambientais da área em questão,
buscando identificar as principais mudanças ocorridas nestes
termos – considerando a caracterização ecológica (com foco
na biodiversidade) e também a questão da ação humana diante
de tal quadro. Neste sentido, são considerados tanto os
conflitos ambientais nessa região como as possíveis respostas
em termos de políticas públicas para resolução de tais problemas,
de acordo com Leila da Costa Ferreira, coordenadora no âmbito
de Políticas Públicas.
Além disso, Carmo
lembra que o Projeto Clima busca identificar, descrever
e mapear fenômenos e processos como o uso e ocupação do
solo na região; a produção e consumo de recursos naturais;
a causa da mortalidade de certos grupos locais; a experiência
dos governos municipais em tentar harmonizar o crescimento
econômico, a justiça social e a proteção ambiental em nível
local; e conflitos locais, regionais e globais, considerando
a ocupação irregular do Parque da Serra do Mar.
Sem perder de vista
a dimensão humana, um dos alvos do projeto é avaliar como
as mudanças ambientais, decorrentes dos recentes processos
de produção e ocupação do solo na região, irão afetar a
biodoversidade terrestre – com alteração da mudança de cobertura
do solo, mudanças na composição florística, na estrutura
e no funcionamento das florestas, explica Simone Aparecida
Vieira, pesquisadora do Nepam. “Com base no conhecimento
tradicional dos pescadores, o projeto tentará identificar
possíveis mudanças na composição das espécies, na diversidade
e no tamanho dos peixes capturados”, afirma.
Projeto já rendeu
dissertações, teses e 89 artigos
Ao longo desses dois anos
de pesquisa, o Projeto Clima tem alcançado resultados expressivos.
São 11 capítulos de livros, teses, dissertações e 89 artigos
publicados entre anais de congressos e periódicos científicos
– entre os quais, 7 internacionais. Além disso, no Nepo
já há um banco de dados demográficos consolidado sobre a
área em questão, disponível para os pesquisadores envolvidos.
Os primeiros resultados desse projeto temático já geraram
trabalhos que ultrapassaram as fronteiras brasileiras, sendo
debatidos em congressos científicos na China, Estados Unidos,
Suíça, Alemanha, Cuba, Chile, Portugal, Itália e Holanda.
Uma
das teses de doutorado concluídas no âmbito do Projeto Clima
foi a de Eliane Simões, em Ambiente e Sociedade. O estudo
de Eliane focou os processos decisórios relacionados à gestão
da presença de populações no Núcleo Picinguaba do Parque
Estadual da Serra do Mar, em Ubatuba.
Com enfoque nas restrições
ao uso e acesso aos recursos naturais, a pesquisadora analisou
situações ocorridas entre 2001 e 2009, do ponto de vista
do jogo de interações entre atores governamentais e residentes
da área. Segundo Eliane, ao contrário do que propaga o senso
comum, a manutenção de populações residentes na Unidade
de Conservação pode contribuir para a preservação da biodiversidade.
Essa integração se daria,
de acordo com Eliane, quando a população é incluída nos
processos decisórios, por meio de mecanismos participativos,
integradores e reconhecidos como legítimos na formulação
de ações e políticas públicas.
A pesquisadora esclarece,
ainda, que os pactos formulados sempre significaram acomodações
temporárias aos conflitos do momento, que gerariam novas
necessidades a serem assimiladas ao patamar de negociação
atingido, através de novas rodadas de negociações. “Isso
implica em aceitar que os conflitos, em especial de uso
de territórios e recursos naturais, não são solucionáveis,
mas sim geradores de possibilidades potenciais de negociação,
diretamente relacionados à capacidade de governança instalada
na localidade”, argumenta Eliane.
Uma das dissertações de
mestrado já concluídas no âmbito do projeto foi o da demógrafa
Francine Modesto dos Santos, que versou sobre populações
em situação de risco ambiental em São Sebastião. O estudo
examinou as profundas transformações econômicas, sociais
e ambientais que ocorreram no município entre 1970 e 2010
– dado o advento de grandes empreendimentos, como a construção
da Rodovia Rio-Santos na década de 1970.
Francine buscou compreender
a percepção que as populações bairros têm dos riscos e de
quais estratégias podem lançar mão para enfrentar os perigos,
elementos que permitem analisar a vulnerabilidade do lugar
do ponto de vista demográfico.
Segundo a pesquisadora,
o acelerado processo de urbanização e a redistribuição espacial
da população no município fortaleceram uma série de perigos
ambientais que afetam diferentes grupos sociais de maneiras
distintas. Hoje os perigos como deslizamentos de morros,
inundações, contaminações do solo e acidentes industriais
têm suas consequências agravadas devido à forma de uso e
ocupação da terra, sobretudo nos bairros do entorno do Terminal
Marítimo da Petrobrás.
Site vai reunir dados
Uma página na internet do Projeto Clima pretende ampliar a rede de conhecimento a respeito das
questões socioambientais e, desta maneira, contribuir
para o fortalecimento dos debates sobre o tema entre os
mais diversos setores da sociedade. Ainda em fase de construção,
o site, segundo os pesquisadores, contribuirá para o desenvolvimento
dessa rede de informações e o fortalecimento do diálogo
entre membros de diferentes áreas da comunidade científica
e entre estes e os demais setores da sociedade.
Também em construção está um banco de dados geográficos
do litoral norte. Fundamental, por exemplo, para a verificação
da cobertura vegetal da área, o banco será utilizado pelos
pesquisadores do projeto, com diferentes objetivos.
Transformações,
vulnerabilidade e
percepções do risco
Lúcia da Costa Ferreira enfatiza que, como toda faixa
litorânea, a região é marcada por grandes e rápidas transformações
ambientais. Entretanto, numa perspectiva que considera
a relação entre elementos ecológicos e sociais, a coordenadora
do projeto lembra que nos últimos anos houve um incremento
da atividade industrial na região, sobretudo do segmento
naval, além de investimentos do porto de São Sebastião
e na Unidade de Tratamento de Gás, em Caraguatatuba. Nesse
contexto, houve um aumento no investimento em ampliação
de infraestrutura viária, como a duplicação da Rodovia
Tamoios.
Nesse quadro de alterações socioambientais, a pesquisadora
destaca também as mudanças decorrentes da explosão do
mercado imobiliário, com a instalação da indústria do
turismo veranista. Tal fenômeno deflagrou conflitos diversos,
trazendo novos valores e questões para a sociedade local,
o que, muitas vezes, acaba por modificar valores tradicionais
– como a desvalorização da atividade pesqueira local.
Outro fator que altera
a dinâmica social e que veio a reboque de tais transformações
foi a migração. “Seja pela atração de altos quadros para
serem absorvidos nesse mercado industrial que cresce na
região, sejam trabalhadores atraídos por empregos na construção
civil, fato é que na última década um grande número de migrantes
veio para o litoral norte, trazendo à tona questões referentes
à moradia, saneamento básico, estrangulamento dos serviços
públicos, já normalmente precários na área”, lembra a coordenadora.
Ademais, num quadro de recente interesse pela possibilidade
de exploração de petróleo no país, por meio da tecnologia
de exploração da camada de pré-sal, a região também ganhou
visibilidade neste aspecto. Lúcia explica que para a exploração
de petróleo em tão profunda camada geológica é preciso
a utilização de tecnologia muito avançada, “o que, mesmo
assim, não garante a total ausência de riscos de acidentes
ambientais da magnitude do que ocorreu recentemente na
bacia de Campos, no Rio de Janeiro, ou ainda mesmo se
pensarmos no caso recente ocorrido no Golfo do México”,
afirma Lúcia.
É a partir deste cenário socioambiental que a pesquisadora
do Nepam Gabriela Marques Di Giulio busca, em sua pesquisa
de pós-doutoramento, entender como a população que vive
na região do litoral norte percebe sua capacidade de proteção,
adaptação e reação frente aos riscos associados às mudanças
climáticas e ambientais, bem como aos conflitos que poderão
ser gerados com novos empreendimentos na região, entre
os quais obras viárias, oleodutos e gasodutos, linhas
de transmissão ou expansão urbana.
Utilizando como método
de pesquisa qualitativa a realização de grupos focais com
diferentes atores sociais, a pesquisadora também busca identificar
e compreender como os indivíduos participam do debate e
do processo decisório a respeito desses possíveis riscos.
Além disso, ela analisa as estratégias de comunicação de
risco adotadas pelos pesquisadores envolvidos no Projeto
Clima em suas relações e diálogos com os demais grupos sociais
envolvidos na arena desse debate.
Para Gabriela, “em situações de riscos, o conhecimento
das condições locais ajuda não só a determinar que dados
são consistentes e relevantes, como também a definir os
problemas que devem ser alvo das políticas públicas. Daí
a necessidade de colocar em prática também uma pesquisa
mais participativa, que envolva os diferentes grupos sociais
que estão na arena do risco”.
Em um contexto de mudanças ambientais e climáticas, a
pesquisadora lembra que os desafios para o enfrentamento
dessas situações incluem também a aparente inabilidade
em lidar com os riscos e as lacunas na avaliação da vulnerabilidade
dos locais. “É preciso identificar e compreender como
os riscos são percebidos, já que os eventos associados
a mudanças ambientais e climáticas sinalizam que as percepções
individuais interferem fortemente nas condutas e nas ações
mitigadoras e adaptativas”, afirma.
Além dos grupos focais, o estudo conduzido pela pesquisadora
também envolve a realização de workshops interativos,
reunindo pesquisadores do Projeto Clima, representantes
de órgãos governamentais, líderes de organizações sociais
e não-governamentais. O primeiro desses workshops (de
cooperação internacional) aconteceu em julho deste ano
no núcleo Caraguatatuba do Parque da Serra do Mar, onde
pesquisadores do Projeto Clima, alguns representantes
locais e pesquisadores da Universidade de Griffith, da
Austrália, trocaram conhecimentos sobre o tema, lançando
a possibilidade de um estudo comparado no futuro entre
a costa paulista e South East Queesland.
É também com o intuito de realizar uma ponte de cooperação
internacional que a doutoranda em Ambiente e Sociedade
Fabiana Barbi passará um mês em Shangai, na China, trocando
experiências sobre o caso brasileiro e chinês referente
a políticas públicas e mudanças climáticas.
O Projeto Clima ainda
conta com a colaboração de diversos institutos e universidades,
tendo como instituições parceiras a Empresa Brasileira de
Pesquisa Agropecuária (Embrapa); Universidade de Indiana
(Estados Unidos); Universidade de Durham (Reino Unido);
Universidade de Griffith (Austrália); Associate Faculty
Earth System Governance – IHDP; Universidade Federal de
São Carlos (UFSCar); Universidade do Vale do Paraíba; e
Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT).
Outra realização do Projeto Clima, que decorre de cooperação
internacional, será a visita do professor e antropólogo
Emílio Moran à Unicamp. Moran é diretor do Anthropological
Center for Training and Research on Global Environmental
Change, da Universidade de Indiana (Estados Unidos)
e estará na Unicamp de fevereiro a abril de 2012.
O pesquisador visitante abordará as possibilidades de
aplicação de um framework policêntrico e interdisciplinar,
capaz de integrar vários níveis de organização da ação
humana, sobrepostos para enfrentar os complexos problemas
da mudança climática global. Serão examinados o “estado
da arte” dentro dessa temática, instrumentos metodológicos
e ferramentas técnicas para a organização coletiva de
dados, além de planejamento conjunto de publicações.
Com esse intercâmbio de ideias, “pretende-se criar as
bases institucionais e teórico-metodológicas de colaboração
no intercâmbio de estudantes e professores, pesquisas
comparadas e divulgação científica internacional.”, explica
Lúcia da Costa Ferreira.
Outra realização neste mesmo sentido é o workshop para
a criação de uma rede Ibero-americana de pesquisa em Ambiente
e Sociedade, com enfoque nas dimensões humanas das mudanças
ambientais e climáticas em áreas protegidas e seu entorno.
Tendo a Unicamp como sede do evento de abertura, a rede
é liderada pelo Nepam e conta com apoio do convênio Santander-Unicamp.
A iniciativa está ancorada na troca de experiências em
uma ampla variedade de ecossistemas e de realidades socioculturais
e políticas.
Neste workshop, realizado
entre os dias 12 e 13 de dezembro, participaram pesquisadores
de países latino-americanos (Brasil, Peru, Chile, Cuba,
Bolívia e México) e da Espanha, que estão envolvidos em
atividades de pesquisa no âmbito das dimensões humanas das
mudanças ambientais e climáticas.
■ Publicações
Artigos
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