| |
Quando a demora pode ser fatal
Estudo demonstra como falhas no
atendimento
obstétrico podem causar mortes de mães
CARMO
GALLO NETTO
São
recorrentes nos noticiários das TVs os casos em que mulheres
grávidas acometidas de complicações morrem por falta de assistência
em tempo hábil ou até por não chegarem a ser atendidas. Meio
milhão de mortes maternas ocorre no mundo anualmente entre
gravidez, parto e puerpério - período que sucede ao parto.
A grande maioria delas em países em desenvolvimento. Embora
essas mortes possam ser evitadas, as causas das complicações
que as originaram não são previsíveis. A maior parte das complicações
que podem levar a óbitos ocorre em proporções semelhantes
nos mais diversos contextos socioeconômicos, mesmo naqueles
em que a educação é adequada, o pré-natal cumpre rotinas corretas
e que contam com bom suporte nutricional. As complicações
não discriminam países ricos ou pobres. O que determina então
a gritante diferença entre os índices de mortalidade materna
quando comparados países de menor e de maior desenvolvimento?
Os indicadores de mortalidade materna se mostram extremamente
sensíveis a dois fatores: cuidados obstétricos adequados e,
talvez mais importantes, à presteza com que são aplicados.
Estes dois principais indicadores
levaram, em 1990, à adoção de um modelo teórico denominado
três demoras, Three delays model, com o objetivo
de estudar as causas das mortes maternas desde o início das
complicações até o óbito. O modelo considera os fatores que
interferem na busca pelo cuidado adequado e que podem contribuir
para as chances de sobrevivência. Esses fatores são compartimentados
em três fases: demora na decisão da mulher e/ou da família
em procurar cuidados; demora de chegar a uma unidade de cuidados
adequados de saúde; demora em receber os cuidados adequados
na instituição de referência.
Com base nesse modelo, Rodolfo
de Carvalho Pacagnella, obstetra e professor da Universidade
Federal de São Carlos, desenvolveu estudo que permitiu determinar
essas demoras no atendimento obstétrico como uma das principais
causas de óbito das mães. O trabalho foi orientado no sentido
de aprofundar o referencial teórico sobre o tema e avaliar
a associação entre demoras na obtenção de cuidados obstétricos
adequados e diferentes desfechos maternos segundo o modelo
three delays. Com efeito, os pesquisadores constataram que
a utilização desse modelo, que antes se atinha às pacientes
que morriam, passa a ser estendido para o universo das sobreviventes
a partir do conceito de near-miss materno, constituindo uma
alternativa ao conceito de mortalidade materna.
O
autor da pesquisa explica que esse novo conceito se debruça
sobre o estudo dos casos de complicações que potencialmente
poderiam ter levado à morte, que não se concretizou devido
a intervenções ou cuidados. São os casos que ele chama de
“quase morte”. O conceito near-miss materno, que estuda as
sobreviventes, permite uma análise mais acurada porque se
aplica a um universo que, além de muito maior, é constituído
por pessoas que podem ser contatadas. A aplicação exclusiva
do modelo “three delays”, conforme concebido, levaria apenas
ao estudo dos casos de óbitos, que além de bem menores, inviabilizam
verificações diretas com as vítimas. A tese de doutorado,
apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Tocoginecologia
da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp, foi orientada
pelo professor titular de obstetrícia José Guilherme Cecatti.
Modelo e conceito
Para a medida de saúde de
uma maneira geral são utilizados alguns índices, como mortalidade
infantil no caso de crianças. Para a saúde materna se utilizavam
até muito recentemente os índices de mortalidade materna durante
gravidez, parto e puerpério. Apesar de importante para diferenciar
o desenvolvimento de diferentes países, a mortalidade nesses
períodos é relativamente pequena e os números minimizam o
problema. Então os profissionais envolvidos com saúde materna
e a OMS procuraram entender o problema de maneira mais ampla,
de modo a caracterizar um indicador que pudesse refletir com
consistência as complicações que ocorrem nos três períodos
e que permitisse discriminar países em vários graus de desenvolvimento.
Rodolfo conta que, em um
universo de mais de 82 mil partos investigados, 9.555 mulheres
apresentaram complicações graves. Dentre estas, 8.645 constituíram
casos com complicações consideradas potencialmente ameaçadoras
à vida; 770 referem-se a situações com complicações que levaram
à falência de órgãos (near miss materno); e 140 delas
morreram. Com base em dados sobre demoras ele comparou as
ocorrências nesses vários grupos, fato inédito na literatura.
Estas comparações o levaram a concluir que as demoras mais
significativas ocorreram com as mulheres que chegaram a óbito.
E essas demoras puderam ser
localizadas na própria paciente, no sistema de saúde, no hospital,
no médico ou profissional de saúde. “Embora isso pareça óbvio,
nunca tinha sido antes determinado de maneira sistemática,
através de dados concretos, de forma a confirmar os pressupostos
de partida: mais demoras, mais mortes”, afirma ele. Para o
pesquisador os problemas mais graves decorrem da demora do
hospital em ministrar os cuidados adequados. Ademais, emergem
também as demoras relacionadas à organização dos serviços
de saúde, ao transporte e à comunicação entres os vários níveis
de assistência quanto à transferência das pacientes. Os dados
mostram que cerca de 40% das pacientes pesquisadas enfrentaram
algum tipo de demora. Esse índice sobe para 52% nas mulheres
que apresentaram alguma complicação grave. As vítimas de complicações
mais graves, que quase levaram à morte, passaram por algum
tipo de demora em uma das três fases propostas pelo modelo
three delays. E entre as que morreram, 84% enfrentaram
pelo menos alguma demora, o que mostra claramente a associação
entre demora e evolução da complicação.
Adequação
Rodolfo considera o conceito
das três demoras extremamente importante e atual nos trabalhos
envolvendo morte materna, principalmente quando associado
ao conceito de near-miss, que amplia e dinamiza sua
utilização. Para ele, o estudo mostra a adequação do conceito
à realidade e sua viabilidade. Dele conclui que quanto maior
o número de demoras, mais graves as complicações maternas,
especialmente se essa demora ocorrer em nível terciário, ou
seja, no local em que a mulher deveria receber o cuidado adequado,
que lhe permite a sobrevivência.
A expectativa do professor
Cecatti é a de que o estudo leve inicialmente algumas regiões
do país a organizar um sistema de vigilância epidemiológica
em relação ao atendimento da mulher, semelhante ao que existe
nos centros mais desenvolvidos. Constata que a região de Campinas,
face à estrutura de que dispõe, caminha célere para isso.
Ele defende enfaticamente que cada local que possua unidade
hospitalar com atendimento para grávidas tenha pessoal treinado
e claramente identificado com os critérios da OMS. “É o que
vai permitir identificar casos graves, de forma que diagnosticado
o problema a paciente possa ser encaminhada e receber assistência
necessária. É a única maneira de testar o alcance dos modelos
conceituais que estamos aplicando. Sem dúvida nenhuma, para
a redução da mortalidade materna não basta um pré-natal bem
feito se não existir um sistema organizado. É para sua consolidação
que nossa pesquisa quer contribuir”.
Para Rodolfo, o modelo three
delays constitui um importante referencial teórico para o
estudo dos casos de near-miss materno e a análise de demoras
na assistência obstétrica nesses casos pode fornecer dados
precisos sobre as determinantes da mortalidade materna. A
frequência de demoras na assistência obstétrica está diretamente
relacionada ao pior desfecho materno e são significativamente
mais prevalentes entres os casos classificados como de near-miss
materno ou de óbitos.
Quanto às pacientes, os dados
mostram ainda que se associam positivamente à prevalência
de demoras no recebimento do cuidado obstétrico idade da gestante,
gestação precoce, cor não branca, baixa escolaridade, antecedentes
de aborto e internação pelo SUS.
..............................................................
■ Publicação
Tese: “Morbidade
materna grave: explorando o papel das demoras no cuidado obstétrico”
Autor: Rodolfo de Carvalho Pacagnella
Orientador: José Guilherme Cecatti
Unidade: Faculdade de Ciências Médicas (FCM)
..............................................................
Pesquisas da Unicamp norteiam ações
Há vários anos a Unicamp
vem desempenhando um papel importante no estudo do three
delays model e mais recentemente no emprego do conceito
de near-miss materno. O professor Cecatti estima
que há uma década se tenta encontrar uma linguagem comum
para caracterizar complicações graves associadas à gravidez
que potencialmente poderiam ter levado à morte. Em 2009
um grupo da OMS, no qual a Unicamp tem efetiva participação,
chegou a uma classificação de consenso sobre quais seriam
as condições que caracterizariam essas complicações graves.
Para esse consenso contribuíram vários trabalhos desenvolvidos
na Universidade pelo grupo liderado por Cecatti, que à época
representava a Unicamp na OMS.
Começaram então os
estudos para investigar essas complicações em vários locais
do mundo. O início ocorreu no Brasil através de uma pesquisa
multicêntrica, financiada pelo CNPq, englobando as cinco
regiões do País e 27 hospitais de referência de grande porte,
principalmente universitários. Realizou-se então, durante
um ano, a chamada vigilância prospectiva para identificar
a variedade, a quantidade e a gravidade dos casos, quantos
deles levaram à morte, como evoluíram, para determinar quanto
esses dados estavam concordes com outros estudos internacionais
relatados.
Embora essa grande
coleta tenha sido concluída há cerca de um ano, algumas
análises já foram publicadas e outras estão em andamento
em estudos que envolvem mestrados e doutorados, vários próximos
à conclusão. A tese de Rodolfo, a primeira a ser apresentada,
explora uma pequena fração desse estudo maior, que são as
demoras. Embora constituísse uma teoria aceita como verdadeira,
ela não havia sido testada no mundo de maneira sistemática,
prospectiva, em um grupo planejado. A pesquisa tratou de
identificar os fatos que influíram nas três fases de demoras
e baseou-se em mulheres vivas que se tornaram testemunhas
da sua história.
Para levar avante
o estudo o professor Cecatti criou, em 2008, a Rede Brasileira
de Estudos em Saúde Materna e Perinatal, que continua ativa.
A partir dela, centros menores representados por vários
hospitais universitários brasileiros puderam se conectar
de forma a fomentar a ampliação e troca de dados, além de
possibilitarem o desenvolvimento de outros trabalhos acadêmicos
na Unicamp e em outras universidades.
|
|