Moran vê o desmatamento:
‘Seria bom que recobrássemos o juízo já’
MARIA TERESA MANFREDO
Especial para o JU
Quando
o assunto é a questão ambiental, precisamos ter um debate
mais franco sobre quais são de fato as necessidades humanas
e, consequentemente, o que significa ter uma vida confortável
e economicamente viável. É o que preconiza o antropólogo
Emilio Moran, professor visitante no programa de pós-graduação
em Ambiente e Sociedade do Núcleo de Estudos e Pesquisas
Ambientais (Nepam) da Unicamp. Moran está ministrando um curso neste semestre a convite da coordenadora do Projeto Clima, professora Lúcia da Costa Ferreira. O Projeto Clima do Nepam e Núcleo de Estudos de População (Nepo), ambos da Unicamp, é um projeto temático financiado pela Fapesp, cujo objetivo é compreender como as dinâmicas demográficas e sociais interagem com as dinâmicas ecológicas, numa região de alta vulnerabilidade ambiental - o litoral de São Paulo - em um contexto de mudança climática global. Na entrevista que segue,
Moran, que é da Universidade de Indiana (EUA), fala também
sobre o desmatamento na Amazônia, o consumismo e o papel
do Brasil em reuniões como a Rio+20, entre outros temas.
Jornal da Unicamp
– Em seus estudos sobre o desmatamento, o senhor afirma
que historicamente tem se observado que em algum ponto da
trajetória de desflorestamento, sociedades começam a “recobrar
o juízo” e passam a impor restrições aos que cometem devastações
sem ônus. Em que estágio estaríamos em relação à Amazônia,
atualmente? Já “recobramos o juízo”?
Emilio Moran
— Nós estamos muito longe disso. As taxas de desmatamento
ainda são altas, muitas atividades econômicas ainda continuam
devastando a floresta, como a soja, o gado, que cada vez
mais precisam de áreas novas. Seria bom que recobrássemos
o juízo já, mas ainda estamos longe disso. Precisamos equilibrar
desenvolvimento econômico com a conservação da floresta.
JU – Quais
os principais fatores que influenciam o desmatamento da
Amazônia?
Emilio Moran
— O país quer incorporar a Amazônia como parte de seu desenvolvimento
e isso implica o uso da área. Em minha opinião, o que está
faltando é um zoneamento em que se identifiquem áreas que
possam ser manejadas e devam ser protegidas. Estamos num
padrão em que depois que já desmataram é que as pessoas
descobrem se uma área é boa ou não para exploração agrícola.
Temos os recursos hoje para saber isso antes do desmatamento,
mas ninguém procede assim. Estamos deixando as pessoas agirem
para, somente depois, tentar recuperar uma área perdida
que era importante. Mas, aí, já destruíram as espécies nativas.
Além disso, temos que mudar os valores da nossa sociedade,
dar mais valor à água, e menos ao carro, por exemplo. Precisamos
de uma economia e uma ecologia por meio das quais todo mundo
se beneficie.
JU – Em um
dos seus livros, o senhor fala da sabedoria e sensatez dos
povos amazônicos, que correlacionam o mágico e a floresta.
Atualmente, estamos caminhando para valorizar esta sabedoria
ou ainda estamos longe disso?
Emilio Moran
— No geral a sociedade nacional não valoriza o conhecimento
indígena, o conhecimento do caboclo da Amazônia. Eles são
vistos como preguiçosos, como pessoas que não têm educação.
É uma pena, porque essas pessoas têm conhecimentos que poderiam
ser muito úteis para o uso dos recursos da floresta. Por
exemplo, os índios sabem que uma área não é boa para agricultura
avaliando a cor do solo e olhando quais as espécies que
crescem em certos locais; se os escutássemos mais, não acabaríamos
abrindo áreas na floresta, que logo em seguida serão abandonadas,
pois o solo não era apropriado para exploração agrícola.
Seria uma economia para a União e para os colonos que tentam
e não conseguem produzir nessas áreas tidas como ‘fracas’.
Há um conflito entre a
sociedade brasileira que quer ocupar a área indígena para
uso econômico e o conhecimento indígena. Por exemplo, os
colonos que se dirigiam para a Amazônia na época do projeto
da Transamazônica: quase nenhum deles perguntava aos caboclos
como eles faziam as coisas; não havia interesse pelo conhecimento
do povo local. E quando falavam deles, falavam mal, como
se os caboclos ou índios fossem preguiçosos e não trabalhassem.
Só que o que o colono não percebia que o caboclo, o índio,
estavam trabalhando com mais efeito, pois sabiam o que fazer
na floresta, respeitando os horários possíveis de trabalho
dentro do calor amazônico, por exemplo, e plantando variedades
mais apropriadas aos solos e clima da região.
JU – Com a
aproximação da Rio+20, qual sua opinião sobre o papel do
Brasil no quadro internacional em relação ao desenvolvimento
sustentável?
Emilio Moran
— O Brasil teve um papel importante em 1992, enfatizando
muito que não pode haver proteção ambiental sem pensar o
desenvolvimento humano. Essa foi uma das grandes contribuições
do Brasil naquele debate e que ainda é uma preocupação brasileira
e de muitos países do terceiro mundo: não se esquecer dos
pobres nesta discussão. O que considero que não está correto
é que não se questiona quem é que se beneficia com o desmatamento
da Amazônia, por exemplo. Não é o pobre. É uma fatia muito
pequena de empresários que se beneficia. O pobre é sempre
o mais prejudicado.
O discurso contra medidas
rigorosas ambientais, escondido atrás da ideia de desenvolvimento
econômico, beneficia mais o rico do que o pobre, pois este
último é quem arca diretamente com as maiores consequências.
O desenvolvimento econômico, do modo como vem sendo pensado
hoje, privilegia as classes mais favorecidas, jogando todo
o peso nas costas do pobre e da sociedade.
JU – Como o
senhor enxerga as decisões tomadas no âmbito internacional
em relação a mudanças climáticas?
Emilio Moran
— As decisões estão paradas. Países como EUA, Japão, China
e Rússia, entre outros, não estão dando bons exemplos de
participação porque estão mais preocupados em concorrer
pela dominância econômica. Eles acham que, se agirem de
uma forma ambientalmente correta, podem sofrer economicamente.
Temos que parar de pensar que ou é uma coisa ou outra. Temos
que pensar em uma economia limpa, numa economia sustentável.
JU
– De acordo com a ONU, chegamos a 7 bilhões de pessoas no
mundo, em 2012. É possível estabelecer uma relação entre
aumento da população e problemas ambientais?
Emilio Moran
— O problema não é a população em si. A população é parte
do problema, claro, mas a chave da questão está também no
nível do consumo. Os países que têm poucas pessoas, como
os europeus, consomem muito, então seu peso ambiental é
grande; por outro lado, a Índia e China que têm muita gente,
mas ainda não têm o nível econômico de outros países, também
têm um impacto ambiental enorme, por causa do tamanho da
população. Temos que chegar a um ponto de reduzir o nível
de consumo dos países do primeiro mundo, pois se consome
muito mais do que se precisa para viver bem. E os demais
países, onde a população ainda não tem acesso a um nível
de conforto, deveriam chegar numa média e parar num certo
nível; eles não podem consumir de maneira absurda.
Países como os Estados
Unidos são modelos para os demais. Trata-se de um modelo
absolutamente consumista. Precisamos ter uma conversa mais
franca e aberta sobre o que é felicidade, o que é uma vida
responsável, e não agir sem reflexão, ignorando o que se
passa no mundo. A China e a Índia já mostram sinais de terem
entrado no consumismo sem limites. O planeta não pode suportar
essa inconsequência.
JU – O senhor
é otimista ou pessimista em relação ao futuro. Sobreviveremos?
Emilio Moran
— Eu sou otimista, porque assim você procura soluções. E
acho que é essa a preocupação que todos os países devem
ter: um otimismo, mas não um otimismo que acredita que pode
continuar o que está fazendo porque algum dia alguém vai
inventar uma solução técnica. Essa posição evita uma reconsideração
do padrão atual, que não é sustentável, sabemos disso. Entretanto,
sem uma retomada de consciência, estaremos muito mal num
futuro próximo. Precisamos de soluções morais, éticas e
responsáveis: todos nós compartilhamos o mesmo planeta e
somos responsáveis pela sobrevivência e bem-estar de todos.