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Tese aponta relevância de redes
‘alternativas’ de conhecimento
Trajetória do CTI fundamenta pesquisa
etnográfica desenvolvida por antropóloga
A
trajetória do Centro de Tecnologia da Informação (CTI) Renato
Archer, fundado em 1982, é objeto de estudo de tese de doutorado
dedicada à importância das redes de relacionamento para divulgar
e desenvolver pesquisas. Ao ter como atores da sua etnografia
colegas de seu próprio ambiente de trabalho, a autora da tese
Tânia Cristina de Lima constatou que as redes de conhecimento
podem ser alternativas (criadas pelo próprio pesquisador)
ou formais (institucionalizadas pelo centro tecnológico).
O estudo foi desenvolvido no Instituto de Filosofia e Ciências
Humanas (IFCH).
Na opinião da antropóloga,
as redes sociais constituídas para várias finalidades tomam
novos formatos e objetivos que servem para troca de informações,
busca de emprego ou simplesmente para ampliar o círculo de
amigos. No caso do CTI, órgão ligado ao Ministério da Ciência
e Tecnologia e Inovação (MCTI), os cientistas formam redes
para circular o conhecimento obtido nas pesquisas, trocar
informações ou complementar seus trabalhos. “No mundo atual,
principalmente, os pesquisadores precisam estar em contato
com o global com rapidez e eficiência”, ratifica Tânia.
Ao acompanhar a rotina de
um laboratório do CTI, Tânia constatou que o cientista pode
ter o desenvolvimento de sua pesquisa facilitado pela formação
de redes “alternativas”, manter seu perfil profissional de
servidor público e seguir as políticas de ciência e tecnologia
de seu empregador, no caso o governo. A etnografia possibilitou
identificar uma rede exclusiva, com desenho um pouco diferente
das conhecidas.
Ao centrar suas observações
nas redes criadas por um cientista, descobriu que o funcionário
estabeleceu laços com a comunidade interna, com professores
e profissionais ao redor do mundo, de acordo com suas necessidades,
sem precisar que esses laços fossem alimentados constantemente.
A soma de todos esses relacionamentos em rede trouxe benefício
para todos os envolvidos. “Ao olhar para o desenho desta rede,
percebemos quais contatos foram importantes para a formação
do pesquisador”. Nessa rede, há diversos tipos de relacionamentos,
entre eles os que foram estabelecidos por amizade, por reconhecimento
científico ou institucional, mostra que este funcionário,
na condição de pesquisador, pode buscar outros contatos, estabelecendo
sua própria rede. Esta rede é acionada em diversas ocasiões,
de acordo com a necessidade do momento ou do tipo de informação
que precisa atualizar. “Por exemplo, quando precisa se inteirar
sobre um tema particular de sua área de formação, ele aciona
seus contatos com a Universidade de Reading, no Reino Unido
e, se as informações que deseja se referem ao tema de pesquisa
atual, ele aciona os canais criados no Canadá com a University
of Western Ontario”, acrescenta Tânia.
A pesquisadora ressalta que
sem a existência do CTI, a rede formada pelo pesquisador não
teria sentido, pois atrás desse funcionário, há uma história
de uma instituição bem-planejada com referência nacional,
dentro de um ministério. Segundo Tânia, há uma agilidade na
construção dos relacionamentos que tem garantido vários benefícios
para as pessoas e as instituições. Por outro lado, ela constatou
que sem o esforço do cientista, não é possível manter uma
rede. “É preciso que centros como o CTI olhem mais para esses
cientistas que se esforçam e buscam com recursos próprios
participar de workshops e eventos internacionais e viagens
para divulgar o seu trabalho. Não há verbas para todos os
pesquisadores que precisam desenvolver parte de sua pesquisa
fora do país”, ressalta.
No
caso específico do CTI, todas as divisões mantêm redes formais
com outras instituições nacionais e internacionais. Mas diferente
da rede alternativa, em que a iniciativa é individual, a rede
é protagonizada por diversos atores da unidade. Por meio de
desenhos de diferentes redes obtidos com a observação da rotina
de profissionais de diferentes áreas do CTI, Tânia mostra
que as redes contam com atores de diferentes faixas etárias
e as relações são constituídas por aproximação de interesses.
“Nem todos os participantes de uma rede se relacionam. Há
jovens pesquisadores que vão interagir apenas com docentes,
pesquisadores mais experientes que desenvolvem pesquisas que
tenham a ver com o que estão estudando”, explica Tânia.
A partir do que foi observado
durante a pesquisa, Tânia avalia que o CTI poderia intensificar
atividades que promovam o compartilhamento dos saberes, com
equipes multidisciplinares auto-organizadas, proporcionando
interações sociais entre seus grupos distintos e oferecendo
contextos apropriados para a criação de conhecimentos inovadores
em sinergia com atores diversos, capazes de materializar seus
projetos de sucesso. “É preciso abandonar a concentração de
capacidades. A área de software deve trocar informações e
pesquisas com as áreas de hardware, com a microeletrônica
e assim por diante. Essa interação entre os grupos distintos
dentro de contextos apropriados deve ser privilegiada para
fortalecer a instituição”, ressalta. Ela acredita que, para
sobreviver, a instituição precisa que os gestores olhem para
a importância das pesquisas e os laboratórios do centro.
Uma área que necessita ser
ampliada é a de recursos humanos, já que o centro conta com
a evasão de cientistas desde a década de 1990. “Muitos bolsistas
concluem a pós-graduação e são absorvidos pelo setor privado”,
esclarece. A expectativa é que o quadro de cientistas seja
ampliado com o Programa Ciência sem Fronteiras, que, a seu
ver, colabora para que os cientistas retornem às suas áreas
de formação e trabalho. A falta de concursos pode levar ao
envelhecimento da mão de obra, na opinião de Tânia, entretanto,
há uma predisposição por parte de profissionais próximos da
aposentadoria para capacitar jovens cientistas. “Grande parte
dos doutores do CTI orienta teses em universidades”, enfatiza.
Linha do tempo destaca marcos
Rodovia Dom Pedro I, KM 143,6. Muitos que passam por este
endereço, no Bairro Amarais, em Campinas, ignoram o fato
de que ali foram realizados testes com a urna eletrônica
que mudou a história do processo eleitoral brasileiro.
Também pode não ser do conhecimento da maioria os experimentos
realizados com o Projeto Cognitus, que viajou na nave
Soyuz para Estação Espacial Internacional, em 2006.
A lista de acontecimentos
importantes que contaram com a participação de cientistas
e estudantes do CTI está disposta em uma longa linha do
tempo do centro de tecnologia, que começa em 1984, em
uma casa modesta, na Rua Roxo Moreira, em frente da Reitoria
da Unicamp. Neste endereço, funcionava o Laboratório de
Microeletrônica, que hoje é uma parte importante da vasta
área ocupada pelo CTI, ocupando quase 33% de seu terreno.
O espaço abriga a maior sala limpa para pesquisa e desenvolvimento
do Brasil, na qual a antropóloga Tânia atua. Compõe de
sua linha do tempo os primeiros estudos de viabilidade
de produção dos displays com aplicação desde relógio até
computador. O Projeto Invesalius, um software livre e
público usado para tratamento de imagens médicas, está
entre os feitos do centro de tecnologia, assim como o
projeto multiusuário para o desenvolvimento de circuitos
integrados e o de display para laptops.
A casa foi ficando pequena
para tantas ideias e missões, segundo a pesquisadora,
e foi preciso ampliar não somente o espaço, mas o leque
de parcerias. “A missão inicial do CTI, composto por microeletrônica,
automação, robótica e computação, ficou extensa para poucos
cientistas darem conta”, relembra. Aos poucos, as redes
foram sendo formalizadas e a relação com a comunidade
científica, intensificada.
Nesse percurso, a instituição
ganhou identidade, adequou suas pesquisas, criou uma fundação
de apoio e sobreviveeu às mudanças políticas. A interação
com a sociedade, porém, ainda precisa ser aprimorada por
meio de estratégias de divulgação, acredita Tânia. “Hoje,
passamos pelo crivo do Ministério para divulgar nosso
trabalho. O CTI participa de projetos importantes para
a sociedade, produz conhecimento que também precisa ser
transmitido”, analisa.
De acordo com Tânia,
atualmente o CTI é uma das 19 unidades de pesquisas do
MCT distribuídas no Brasil. “As unidades de pesquisa estão
diretamente ligadas ao ministro e funciona de acordo com
as diretrizes dessa política”, acrescenta. Entre os avanços
permitidos pela política do governo está a oficialização,
em outubro de 2010, da criação do CTI-Tec, um parque tecnológico
que tornará viável a sinergia entre empresas e entidades
de pesquisa que atuem em setores tecnológicos de ponta
por meio do compartilhamento de infraestrutura, conhecimentos
e tecnologias e serviços de alto conteúdo tecnológico
na área e tecnologia da informação e Comunicação (TIC).
Na opinião de Tânia, a dinâmica de funcionamento do CTI-Tec
é uma boa mostra de conhecimento desenvolvido em rede.
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Publicação
Tese: “Produção do conhecimento científico
brasileiro: o caso de uma instituição de pesquisas em Campinas”
Autoria: Tânia Cristina Lima
Orientação: Guilhermo Raul Ruben
Unidade: Instituto de Filosofia e Ciências
Humanas (IFCH)
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