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Barriga de peixe,
ou o estulto ‘foquismo’
JOÃO FRANCISCO
DUARTE JR.
Numa
palestra para professores da Universidade Federal do Ceará,
acerca dos elementos estéticos presentes na criação científica,
um de meus comentários foi considerar um equívoco a ideia
de que um indivíduo que tenha elegido um único tema de estudo
e pesquisa ao longo de sua vida acadêmica, desde a iniciação
científica até o pós-doutorado, seja alguém meritoriamente
focado, o que o tornaria mais digno de pontos, por exemplo,
num concurso qualquer. Aliás, frequentemente me vi envolvido
em debates com colegas membros de bancas de seleção por advogar
exatamente a opinião contrária: meu apreço por todo aquele
que ao longo da vida se dedicou a pensar diferentes assuntos,
mesmo os mais díspares e distantes entre si.
Após a fala e aberto os debates
uma jovem bióloga declarou que tinha se reconhecido no meu
comentário, dado ter empenhado toda a sua trajetória acadêmica
estudando “barriga de peixe”. E que só havia se dado conta
do quão pouco sabia da vida e do mundo em geral quando um
namorado recente acabou deixando-a porque ela só sabia falar
disso, de barriga de peixe. Obviamente não pude deixar de
pontuar que quase sempre é assim que se dá o conhecimento,
sendo ele obtido a partir de um sentimento ou emoção primordial
– no seu caso, uma constatação de sua limitada percepção após
se ver “apeixonada”. Piadas à parte, esta reflexão precisa
ser levada a sério. O quão deletéria e prejudicial tem sido
essa tendência cada vez mais acentuada para uma especialização
extrema, incentivada por mensurações de desempenho que quadriculam
a realidade e se tornam um leito de Procusto no qual devem
se acomodar pesquisadores e docentes.
Não custa relembrar o filósofo
e matemático Bertrand Russel, uma das mentes mais proeminentes
e profícuas do século 20. Em sua autobiografia relata que
seu avô (por quem foi criado) repreendeu-o ainda na infância
por tomar e ler aleatoriamente livros dos mais variados assuntos
de sua biblioteca, aconselhando-o a se dedicar apenas a um
tema se quisesse ter sucesso na vida. “Ainda bem que nunca
segui esse conselho”, conclui Russel, cuja vasta obra constitui
um amplo leque de reflexões sobre ciência, filosofia, política,
ética, economia e outros temas fundamentais para o homem e
a sociedade humana. Russel se dedicou a pensar não somente
no peixe inteiro como nos demais cardumes, bem como no rio
onde nadavam e na floresta atravessada por ele, com todos
os seus outros habitantes.
Muitos proeminentes pensadores
e produtores de conhecimento podem ser lembrados como exemplos
de indivíduos que tiveram percursos sinuosos por entre assuntos
e temas variados, e com frequência se nota que suas contribuições
mais originais provêm exatamente da capacidade de conectar
aspectos distintos disto que chamamos realidade, os quais
aparentemente se mostram distantes entre si.
Aliás, o jornalista e escritor
Arthur Koestler – que certamente faz parte desse grupo – em
sua obra The act of creation conceitua como bissociação o
processo pelo qual as pessoas criativas conseguem associar
conhecimentos díspares ou pensar simultaneamente em planos
distintos de referência. E não custa encerrar o parágrafo
registrando que no presente século o prêmio Nobel de economia
de 2001, Michael Spence, antes de se doutorar nessa área do
conhecimento pela Universidade de Harvard, concluiu o bacharelado
em Princeton e o mestrado em Oxford, ambos obtidos em artes.
“A ideia de que as pessoas
devem ter uma certa percentagem de seu tempo para fazer coisas
sem nenhuma ligação com sua tarefa talvez seja uma maneira
boa de fazê-las pensar fora do plano.” Afirmação de Joichi
Ito em entrevista à Folha de S. Paulo (de 02/01/2012). Diretor
do Media Lab, um dos componentes do incensado Massachusetts
Institute of Technology (MIT), Ito, além de seu domínio em
informática e física, orgulha-se de ser instrutor de mergulho,
ocasião em que vê as crianças, seus alunos, aprenderem com
vontade, alegria e determinação conceitos de física, química
e matemática. Contudo, o que talvez cause mais espécie em
nossos focados e titulados corpos docentes seja a informação
de que Ito dirige o Media Lab do MIT não sendo portador sequer
de um diploma de graduação. E que nunca conseguiu concluir
os cursos nos quais se matriculou justamente por não se adaptar
ao “foquismo” daquilo que tentavam lhe ensinar.
(Nesta altura temos que abrir
um parêntese para registrar um caminho alternativo de reflexão,
o qual, no entanto, não será trilhado aqui. Trata-se do desprezo
que até hoje se devota às Carreiras Especiais dentro da Universidade,
as quais deveriam abrigar pessoas como Joichi Ito, sem demérito
de vencimentos ou incentivos forçados à titulação. Fecha o
parêntese.)
Merece
também menção o editor John Brockman e seus esforços para
reunir pensadores das mais diversas áreas, compilando seus
conhecimentos e opiniões sobre temas específicos em livros
sob os mais variados títulos, o que vem fazendo desde 1998.
Em seu entender tão-somente ideias vindas de diferentes áreas
do conhecimento que possam se interligar e se interinfluenciar
poderão conduzir à solução dos principais problemas que assolam
a humanidade. Entretanto, um caso exemplar e deveras significativo
é o de Joseph Needham. Da Universidade de Cambridge, no Reino
Unido, era bioquímico de formação e se interessou pela China
graças a uma namorada chinesa, que lhe ensinou a língua. Designado
para um trabalho naquele país, acabou por formular a célebre
“pergunta de Needham”: se desde tempos imemoriais aquele povo
detinha o conhecimento e a tecnologia para a produção de tantos
artefatos e produtos inovadores (como a pólvora, o papel e
a seda), por que foram os ocidentais e não eles os criadores
da ciência moderna?
Mesmo sem ter formação em
história das ideias, resolveu pesquisar o assunto, no que
foi apoiado pela sua instituição. Planejava escrever, em dez
anos, em torno de sete volumes para responder a sua questão.
Gastou, na verdade, quarenta anos e, até a sua morte (em 1995),
já havia escrito quinze mil páginas de reflexões, construindo
uma obra monumental. Nunca mais escreveu uma linha sequer
sobre bioquímica, na qual o pensamento estulto talvez dissesse
que ele deveria se manter focado. E, detalhe importante, nunca
foi cobrado por isso; pelo contrário, foi incentivado e reconhecido
por sua hercúlea tarefa.
Por todos esses breves fatos
e ligeiras reflexões se me afigura cada vez mais surpreendente
que a ideologia do “foquismo” esteja ganhando tantos adeptos
no meio acadêmico. Sem dúvida, o trabalho focado parece consideravelmente
menos desgastante e arriscado, com menor quantidade de leituras
e reflexões a serem levadas a cabo e menores chances de fracasso.
Porém, com ele, reduzidas são também as possibilidades de
grandes saltos e inovações surpreendentes no conhecimento
humano, notadamente a possibilidade de que se obtenham sínteses
abrangentes e seminais.
Obviamente a probabilidade
de surgimento de novos Russels ou Needhams será sempre baixa,
dado serem pessoas acima da média (vide a curva de Gauss).
Todavia, assim como é praticamente nula a probabilidade de
rosas medrarem no deserto, na medida em que se criam ambientes
aridamente “foquistas” se impede a germinação de mentes ávidas
pelo trânsito sinuoso entre os campos do saber humano. E este
parece ser especificamente o caso da norma firmada pela Capes
de não atribuir, em sua avaliação, pontos a trabalhos de pesquisadores
que não se restrinjam à área do programa de pós-graduação
no qual estão credenciados. Além de tal prática ser arrogante,
por supor a clarividência e a suprema sabedoria de seus avaliadores,
que conseguiriam detectar de antemão desvios de rota e práticas
dispersivas por parte de uma mente em processo de criação,
ela parece estulta em si própria, preocupada apenas com a
quantidade e não com a qualidade da produção acadêmica.
Note-se, por fim (mas não
em último lugar), que todo e qualquer docente, pesquisador
seja de qual área for, tem, por definição, ao menos mais um
assunto do qual deveria se ocupar diariamente: a educação.
Sim, pois sua prática numa instituição de ensino superior
é, de modo precípuo, educacional, e esse campo de trabalho
possui múltiplas vertentes de abordagem, quais sejam, históricas,
econômicas, políticas, sociais, psíquicas etc. Contudo, pelos
padrões avaliativos atuais tão-só os docentes das faculdades
de educação merecem pontuação por seus trabalhos de reflexão
sobre o tema. Essa barriga de peixe só a eles pertence.
(E num derradeiro parêntese
cabem informações complementares. Primeiro, que “um dos motivos
encontrados por Needham para o estancamento da criatividade
chinesa a partir de 1500 foi justamente a aversão de uma estrutura
burocrática acomodada na certeza de sua própria sapiência
a tudo que discrepasse dos padrões impostos”. Citação esta
retirada do artigo do psicanalista e docente da PUC São Paulo,
Renato Mezan, “O Fetiche de Quantidade”, publicado na Folha
de S. Paulo – caderno Mais – de 9 de maio de 2010, ao qual
devo as informações sobre Joseph Needham. A esse respeito,
ou seja, acerca de uma alucinada quantificação como parâmetro
unívoco para a mensuração da produção acadêmica, remeto também
o leitor ao meu ensaio The Rotten Papers, ou Adiós Que Yo
Me Voi, publicado em A montanha e o videogame: escritos sobre
educação – Papirus Editora.)
João Francisco Duarte Junior é docente
do Instituto de Artes (IA), com sinuoso percurso escolar e
acadêmico: técnico em química industrial (nível médio), graduação
em psicologia, mestrado em psicologia educacional, doutorado
em filosofia da educação e livre-docência em artes.
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